Cartas do Paraíso
Cida Almeida







05/09/2007 15:45
Escrever, o ato de viver o texto





Escrevo porque...




(Con)viver com palavras não é fácil, principalmente se a nossa necessidade de palavras for uma ânsia. Às vezes fica difícil saber se habitamos as palavras ou se são elas que nos habitam. Esse atrito cruel entre presença e fuga, controle e descontrole, compreensão e incompreensão. Mas o melhor de tudo é que, por mais que doa, e dói muito, a coisa toda é muito prazerosa. Penso que escrever é nos atrevermos, corajosamente, à arqueologia do espelho.

Hoje entendo claramente a razão da minha resistência à publicação, mesmo na Internet. Simplesmente medo, aversão às imperfeições do espelho, de confrontar com a lucidez cristalina da materialidade da palavra a obscuridade da intimidade mais funda aflorada na trama da nossa escrita, do nosso texto. Quando escrevemos nos tornamos um prato cheio para a voracidade do bom leitor, aquele que lê nas entrelinhas, nos silêncios, nos não-ditos, na intenção que se entortou no meio do caminho e contornou a pedra, a nossa fragilidade toda à flor da palavra que mais confirma quanto mais se nega...

Às vezes penso que foi bom eu ter feito um corte cirúrgico na minha escrita em favor da vida. Ao invés de escrever, decidi viver. Também deve haver em tudo isso uma pontinha de arrependimento de ter parado numa fase tão boa e produtiva. Por isso me chamou tanto a atenção o último livro do Moacyr Scliar (O Texto, Ou: A Vida), em que justamente refaz o caminho da sua escrita, esmiuçando o seu processo criativo. O cara só queria ser o melhor contador de estórias do Bom Fim. E uma vida por viver, entre as dores do corpo e as dores da alma, a escrita restauradora.

O texto ou a vida? A vida, sem dúvida. Mas a gente também descobre que a vida é a arte de melhorar o texto. É exatamente neste ponto em que me encontro. Tentando melhorar o texto da vida, sem aqueles hermetismos em que me negava tanto, em que criava espaços sagrados, em que as palavras eram muralhas, fortalezas para me guardar de mim, da vida, dos outros, sei lá de que monstros mais!

Então, esse meu reencontro com o gosto da palavra, com o gosto da existência também na força e beleza do verbo (que todos almejamos), vem com um sentido profundo de restauração de sentidos, mesmo na errância da travessia, com aquela necessidade de tocar o barro fundo da existência, mas sem grandes pretensões. Escrevo porque é um processo vital pra mim e porque me dá prazer.

E escrevo, sobretudo, para perder o medo, todos os medos. Escrevo para encontrar o outro do meu jeito mais quente. Escrevo para me expor e expor aquilo que é profunda e estranhamente desconhecido pra mim. Escrevo como quem crê em construções de pontes, ligando o que não se sabe a não sei quê... Mas construindo, por intuição e impulso...

Escrevo para tentar o mínimo de diálogo com o meu tempo, com a minha brevidade... Escrevo como quem racha lenha seca para atirar na fornalha onde arderá o próprio corpo...

Escrevo porque acredito que a alma é uma construção laboriosamente humana... Escrevo porque gosto da sensação do barro fresco entre os meus dedos... Escrevo para suavizar as dores que sinto... Escrevo porque não sei pintar, não levo o menor jeito para a música e porque me frustra profundamente a consciência de não saber esculpir... Minha ambição seria o dom de Camille Claudel, que tinha nas mãos o segredo das asas e a leveza amorosa do olhar de Deus na contemplação da criatura...

Escrevo para não endoidecer de tanto pensar. Definitivamente, não escrevo para ficar. Escrevo para repousar e sonhar com a mesma inspiração divina que levou o primeiro homem a rabiscar a pedra.

Escrevo numa ilusão de flor brotando na superfície da pedra, a inominável e a que é na dureza dos dias...

Escrevo para simplesmente ser.

Escrevo para esbarrar em Drummond, para ser cutucada desaforadamente por Mário de Andrade. E escrevo ainda para ranger meu humor desgostosamente satisfeito de seguir Bandeira.

Escrevo porque já tropecei demais. E descobri com Mário de Andrade que escrever é um soberbo tropeção!

Escrevo para embarcar clandestinamente com aquela preferência inarredável pelas portas secretas no transatlântico dos delírios opiáceos de Álvaro de Campos, conhecer por dentro a engrenagem e ser triturada pela grande máquina de fazer doido, e quem sabe visitar a aldeia de Alberto Caeiro e antes do fim da viagem escapulir ao ideário de arte de Ricardo Reis. E antes de abandonar o navio, que eu erre muito, já que sempre fui mesmo desorientada para espaços fechados, e bata atabalhoadamente na cabine atormentada de Bernardo Soares. E que prove o fel eterno do seu desassossego, uma gotinha que me estrague o mais leve contentamento e que eu siga contentemente descontente a escrever.

Escrevo por inveja boa de escalar a esculpida pedra dos grandes textos e vou cultivando em mim a delicada flor sintética das leituras, a que nunca murcha. Escrevo para ouvir a minha própria voz como uma condenação de Eco, a ninfa, no breu da caverna onde ainda rasteja a nossa precária humanidade.

Escrevo porque a vida é um acontecimento e fui alfabetizada com ouvido cativo de ouvir as estórias do meu pai. Escrevo para não perder o encanto da sua voz na minha alma. Escrevo para nunca esquecer a profundidade silenciosa do afeto da minha mãe.

Escrevo para repetir a gratuidade da infância, trocar brinquedos e pequenas maldades que não fazem mal a ninguém.

Escrevo para evaporar, para gastar o lápis, secar a tinta da caneta, ir até o fim do caderno e lá chegando colocar ponto final, mas por dentro mal contendo aquele desejo de cravar: e foram felizes para sempre.

Escrevo pensando que um dia ficarei esperta como Clarice que soube começar e terminar sua história, com uma primorosa lição: começou depois de algum inusitado começo não escrito com ponto e vírgula (;) e fez do fim um fim sem fim e a minha imaginação continua depois daqueles dois pontos (:), concretamente poéticos, uma carinha invertida zombando de mim.

Escrevo para desfiar um rosário de bobagens pensamenteadas. E porque acreditei na ternurinha angelical de Quintana sussurrando no meu ouvido que com minhas bobagens poderia fazer poesia.

Escrevo para ser instigada por quem desgoste do que escrevo e devolve o troco.

Escrevo para ter fé de que dias melhores virão...

Escrevo para ter vontade de atravessar a rua e caminhar anonimamente ao lado do rapaz que conta uma história que me interessa muito, como se fosse a coisa mais importante do mundo. Na confusão da cidade perdida os que conversam me ignoram e eu sigo a narrativa banal porque sou voyeuse de palavras.

Escrevo para habitar a tenda de Sherazade, para dominar a fúria de morte do sultão insano que mora comigo.

Escrevo para sonhar com o futuro. E porque Júlio Verne era mais esperto que os cientistas e sabia dar vida às coisas que aconteceriam no futuro do meu tempo, no prazeroso aqui e agora.

Escrevo porque a vida é um drama e eu preciso do sossego do cantinho espremido da página de um livro, mesmo que imaginário.

Escrevo porque qualquer página em branco, mesmo que seja a tela do computador, me dá uma fissura danada.

Escrevo porque tive medo de Freud. Fugi como o diabo dos divãs, mas inexplicavelmente me encantei com Jung e sigo o vagaroso carrossel do inconsciente coletivo. Desço e subo espirais da pedra e do sono, atravesso a seco o deserto de águas subterrâneas que nunca atinjo. E vou misteriosamente me recompondo nos fragmentos de textos, desentranhando as vozes do fundo do baú, as máscaras dos ermos-eus que tirei de tantos rostos e colei ao meu.

Escrevo porque Shakespeare e Machado já fizeram o universal. Esculpiram com palavras os grandes dilemas dos nossos ossos existenciais. Minguada e particularíssima, vou pela calçada na manhãzinha escassa do meu coração matutando minha escrita torta de pensamento torto na linha errada. Mas divinamente minha!

Escrevo porque gosto de Cecília, de Adélia, de Elisa, de Lygia, de Clarice, de Raquel, de Hilda, de Ana C., de Virgínia, das Emilys... E senti falta do poder da linha e da agulha naquelas lombadas douradas dos livros que vivem na minha biblioteca.

Escrevo porque em Platiplanto tenho lugar cativo na arquibancada da arena para o espetáculo dos cavalinhos de José J. Veiga. E foi tão bom chegar lá depois da estrada de tijolos amarelos e das maravilhas do mundo de Alice.

Escrevo porque achava lindo o texto do meu amigo Magno Medeiros e suas palavras me ensinaram a ouvir o camelo no infinito de música.

Escrevo porque um dia cavalguei com o enigmático dândi Hugo de Carvalho Ramos, que em tudo destoava do sertão, mas era um ser dos ermos e gerais nas trilhas batidas das tropas e boiadas que cruzavam o além Paranaíba. A mesma travessia do meu avô e de nossas almas. Escrevo porque Hugo continua pulando no meu peito com seus diabinhos ensandecidos para saber o nome dos meus bois.

Escrevo porque sou fã de Sherazade e a procuro em cada autor que leio.

Escrevo porque no meio do caminho havia um Rosa e uma travessia difícil para descobrir o sertão da minha alma.

Escrevo porque Riobaldo acordou em mim uma voz profunda, que veio do barro e aspira ao pó como destino, e me fez fechar, por vários anos, Grande Sertão: Veredas. Temi, depois daquela leitura, nunca mais escrever uma linha. Hoje, a janela é ampla e a cadeira predileta de Caeiro é o meu mais profano desejo na brisa da varanda de Riobaldo. Dias de Diadorim, sempre por perto, cego de amor e de ódio, um redemoinho na paisagem de dentro.

Escrevo porque tive um dia bom. Escrevo porque tive um dia ruim. Escrevo porque tive um dia mais ou menos. Escrevo pela força do hábito.

Escrevo essencialmente porque me dói escrever e também me dói não escrever. Escrevo descaradamente, sem inspiração, sem a menor crença na transpiração.

Escrevo para não me largar de mão. Escrevo para não deixar pra lá.

Escrevo porque o sexo é ruim. Escrevo porque o sexo é bom.

Escrevo porque você não me beija mais.

Escrevo porque você me trouxe flores.

Escrevo porque sou carente.

Escrevo porque sou osso duro de roer.

Escrevo porque gosto de seduzir.

Escrevo porque escuto mais do que devo e devo mais do que escrevo.

Escrevo porque alguém me liga e me desafia.

Escrevo com prazer redobrado porque já disseram que escrevo “bem demais para uma mulher”. Escrevo porque é melhor ouvir absurdos do que ser surda e poder revidar com o estilo da minha melhor escrita as bofetadas.

Escrevo porque não agüentava a pobreza de texto do meu primeiro namorado, que não sobreviveu ao primeiro texto, claro.

Escrevo porque vivi muitos amores platônicos. E todos tinham belíssimos textos.

Escrevo para tocar o mundo. Escrevo para futricar dores caladas. Escrevo para ouvir a voz dos calados.

Escrevo para transformar dor em flor.

Escrevo com a humildade da primeira vez em que peguei num lápis e rabisquei conscientemente a primeira letra.

Escrevo para rabiscar por cima, nunca apagar.

Escrevo para tentar me ver diferente.

Escrevo para que me vejam no traço comum das mulheres do mundo, de todas as mulheres do mundo.

Escrevo porque amei a voz de Jeanne Moreau. E desejei o meu melhor texto ganhando alma na interpretação dela.

Escrevo porque a escrita me liberta de mim.

Escrevo para perder a chave. E não quero encontrar nada.

Escrevo porque perdi muito tempo. Escrevo porque a eternidade pode estar ali depois da esquina. Escrevo porque não tenho certeza de nada. Escrevo porque não quero nada mesmo.

Escrevo pelo prazer de rabiscar. Escrevo porque amo encher gavetas e ver os papéis amarelecerem, porque adoro o amarelo das antiguidades, principalmente na superfície do papel.

Escrevo porque adorava receber cartas e mais ainda de respondê-las.

Escrevo porque o mundo é cheio de estímulos e eu sou um terminal nervoso.

Escrevo porque penso melhor escrevendo. Escrevo para ser prosaicamente um texto fácil.

Escrevo porque vivo melhor escrevendo. Escrevo sem nobreza de sentimentos. Jamais criaria uma teoria amorosa do texto, como fez Mário de Andrade. Nem penso na humanidade, muito menos no amor à humanidade. Às favas com as pretensões! Escrevo para manter a minha incoerência.

Escrevo para esquadrinhar o espelho, para quebrá-lo, triturá-lo em mil pedacinhos, e mesmo assim, me reconhecer inteira nas minúsculas partes.

Escrevo para amar melhor e me amar mais ao longo de um longo dia.

Escrevo para encontrar a sensualidade da noite e amanhecer o dia de bom humor.

Escrevo. Escrevo. Escrevo. Escavo. Escavo. Escavo. A pedra, a pedra, a pedra.

Escrevo porque a pedra existe, porque é impossível contorná-la e só consigo lidar com ela escrevendo.

Escrevo porque a pedra me habita e eu de tanto tremê-la não a temo mais.

Escrevo quase acreditando que posso transformar dor em flor.

Escrevo para ser varrida pelas palavras.

Escrevo para que tudo que vejo e sinto seja síntese da flor, a pétala e a dor.

Escrevo para que tudo que vejo e minto seja síntese da pedra, a pétala, a flor e a dor.

Escrevo na pedra e com a pedra.

Escrevo para a pedra, a minha antítese.

Escrevo e esqueço em igual medida, porque esqueço para escrever e escrevo para lembrar... A ciranda da pedra me devora.

É só o que sei. Escrevo!



Cida Almeida – Goiânia, 28-08-2007. (http://alfazema13.spaces.live.com).


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01/06/2007 09:47
Carta a Mário de Andrade, o escritor serelepe









Carta a Mário de Andrade, o escritor serelepe que é uma tradução de Brasil


Mário, Mário!

Por muito, mas muito tempo mesmo, você ficou esquecido entre tantos e confusos títulos na minha estante... Até que veio o baque, o estalo, o romper da casca. Mas essa é uma outra história que não convém relatar agora. E não vejo outra forma de contar da alegria do meu encontro com você do que por esta carta que não encontrará o seu destinatário. Mas isso não importa. Encontrei você dentro de um envelope em forma de livro.

Em pensar que esse envelope esteve tantas vezes em minhas mãos e sempre voltava para o fundo confuso da estante. Aliás, um envelope não, dois: no primeiro, que me atraiu mais, as suas cartas para Manuel Bandeira; no segundo, a sua correspondência para Candido Portinari, o seu pintor número um, aquele que desbancou Lasar Segall na sua preferência apaixonada.

E todos os envelopes recheados de cartas que escreveu compulsivamente. Cartas pensamenteadas de Mário de Andrade. E como escreveu cartas o grande autor de Macunaíma (livro escrito em seis dias)! Penso que seria uma delícia você vivendo nos dias de hoje, com todas as facilidades desse admirável mundo novo da tecnologia em tempos de globalização – e você que já era um cara tão antenado... Quantos livros não publicariam os amigos e os não tão amigos assim com a sua profícua e instigante correspondência? E já são tantos dando conta dos segredos de sua robusta caixa postal.

Imagino você e sua curiosidade no tempo das facilidades do e-mail. Nada mais ilustrativo do que a sua citação de Platão na abertura de A escrava que não é Isaura: “Vida que não seja consagrada a procurar não vale a pena de ser vivida”. Você e suas idéias circulando pelo mundo a um click, sem o ritual dos envelopes, do selo, do carteiro, da espera e dos extravios... A angustiante carta que corria o risco de nunca chegar ao seu destinatário...

Que beleza, Mário!

Difícil, Mário, organizar as idéias e centrar-me na objetividade do relato, tamanha a emoção que provocou em mim esse encontro com a sua intimidade sem rodeios, sem papas na língua. Você tão você, com seus erros conscientes e os seus erros de ignorância, que deixavam todos tão confusos que ninguém sabia distinguir o que era estilo ou lapsos de fazer estremecer os puristas na sepultura, principalmente os da língua. A língua que queria brasileiríssima, sem a pompa lusitana. Concordo (em parte) com você. Os nossos diminutivos são mesmo uma gostosura. Carneirinho, sem dúvida, é infinitamente mais bonito que carneirozinho. Depois de você me sinto livre para nadar em riachinho... E achando lindo!


E no aguaceiro marioandradiano de suas cartas um legado precioso de memória que ultrapassa em muitas léguas o homem Mário de Andrade, porque sua intimidade pensamenteada tem a profundidade de Brasil. E você melhor do que ninguém a refletiu, de forma viva e cristalina, em sua obra literária, em sua obra de homem público, incentivador da cultura, pesquisador criterioso e incansável, um brasileiro serelepe e essencial. Um brasileiro metido até o pescoço no modernismo. E na sua intimidade pensamenteada um relicário de testemunho vivo daqueles anos fervidos da cultura nacional.


Mário, o brasileiro que não se furtou ao Brasil, que não deixou que “seqüestrassem” – palavra tão concretamente dura nos violentos dias de hoje e tão recorrente na sua fala metafórica – a sua coragem de ser Mário de Andrade, a ponto de, conscientemente, chegar a comprometer a sua obra.

Você era mesmo um sujeito cabeça-dura!

E Manuel Bandeira que nos diga de sua teimosia e obstinação e todos aqueles que foram vítimas de sua inteligência. Provocador nato, esgrimista intelectual de primeira grandeza, não arredava pé de seu orgulho duramente construído, sobretudo na convivência com a antropofagia das vaidades do seleto círculo dos modernistas.

Penso que rancores, desafetos, mágoas e algum sentimento de inadequação sempre sobram para quem não nasceu em berço de ouro e teve de palmilhar o barro da estrada do cidadão comum, mesmo sendo um sujeito ímpar. E uma frase sua revela muito dessas emaranhadas entrelinhas: “Não ando pago pelos outros. Um café que me paguem me ofende”.

Trabalhar duro, conviver com as desvantagens das diferenças e superá-las todas, e muitos dos seus contemporâneos, na capacidade de produção e na grandiosidade da obra.

Invejável, Mário, em todos os sentidos, a sua capacidade de trabalho. E principalmente a sua capacidade de escuta desse Brasil profundo, o Brasil que ficou mais transparente e carregado de identidade com a sua obra.

Um Brasil que é Mário de Andrade, um Brasil que se perde, se confunde e se contradiz, mas que emerge do fundo do poço com vitalidade titânica. Senti em tantos momentos dessa viagem pela sua intimidade pensamenteada o abatimento moral e a depressão que lhe deixavam meio cinza, meio turvo e mais convicto ainda... E muito mais cabeça-dura. É, devia ter lá as suas fórmulas para sacudir a poeira e seguir em frente.

Com certeza o trabalho e as múltiplas funções que exercia e as obrigações que se impunha eram um santo remédio para essas dores da alma. E justo você que se orgulhava de ser conhecedor de Freud e se considerava um psicólogo. E o intuitivo psicólogo Mário de Andrade deixou rastros fecundos na crítica literária e de artes plásticas.

Acredita que outro dia fiquei de queixo caído numa mega-livraria ao encontrar disponível na prateleira títulos de sua obra que imaginava fora de catálogo. E muitos outros referenciais. Além de ficar contente com o fato (esse Brasil ainda tem jeito!), confirmei também ali que você deve ter sido o escritor brasileiro que mais escreveu cartas. E tome cartas para ilustres conhecidos e desconhecidos...

De cara comprei um volume com três títulos, aquele que o crivo de sua autocrítica carimbou de Obra Imatura: Há uma gota de sangue em cada poema (título que me perseguiu uma adolescência inteira; achava lindo, dramático; reminiscências das aulas de literatura...); Primeiro andar (contos) e A escrava que não é Isaura (ensaio/discurso).

Passei fácil por Há uma gota de sangue e continuo em marcha lenta nos contos, mas caminhando... E fiquei de queixo caído, mais uma vez, e surpresa com a sua esgrima. Digo mesmo, encantada desde o início com o seu jeito de atingir o nervo exposto da polêmica. Adorei a sua parábola da verdade: “Cristo dizia: Sou a verdade. E tinha razão. Digo sempre: Sou minha verdade. E tenho razão”. E, claro, mais adjetivo, encantada com a sua visão da eterna escrava, aquela que Rimbaud deixou nua com um “chute de mais de 20 anos” em sua heterogênea (eterogénea na grafia de Mário) “rouparia”... Só que as impressões da leitura ficam pra (nada mais Mário de Andrade do que um pra coloquial, livre e solto na língua escrita) depois. Mas sinto-me tocada pelo legado generoso do caminho do aprendiz Mário de Andrade, irregular e magistral, mediano e soberbo, enfim, como todo mundo, com seus altos e baixos.

Bom demais também, Mário, ver ressurgir do fundo do poço do seu tempo e pelas suas mãos conscientes a musicalidade dos brasis perdidos dos próprios brasileiros graças ao obstinado trabalho do pesquisador interessado que sempre foi e cultivou.

Bem que podia ter se acomodado, contentado com menos. Aulas no conservatório de música, críticas para jornais, cartas para os amigos, sessões de leitura de poemas, um encantamento com um pintor aqui, outro encantamento maior acolá, Lasar Segall e Candido Portinari nos extremos de sua paixão... Ah, e tinha um Manuel no meio para temperar tudo, o seu alter ego, o seu sparring, a paixão de alma, a irmandade purificada das abertas confidências e todas as inconfidências também. E os seus livros para escrever e a incansável correspondência...

Mas não, você era um viciado em Brasil. Mário, aquele camarada de terno e chapéu, do dinheiro curto e sempre contado, percorrendo o Brasil, recolhendo os fragmentos da musicalidade que são parte do nosso tesouro, da nossa alma no caldeirão saboroso da cultura. E tome viagens... Norte, Nordeste, esses ermos de Brasil tão diferentes, tão palpitantes, tão desencontrados de si mesmos, tão fora do eixo (São Paulo/Rio?). Paulistano que nada! Você era mesmo é do tamanho do Brasil. E que continue desvairada a Paulicéia.

Com todos os xamãs, olho para esse caldeirão no qual meteu atrevidamente a sua colher de pau e me reconheço Macunaíma. E tenho apetite voraz.

É Mário, você me deixou obsessiva. Não, palavra forte. Melhor compulsiva. Depois de devorar a sua correspondência para Manuel Bandeira (Mário de Andrade - Cartas a Manuel Bandeira, coleção Ediouro/Notas e prefácio de Manuel Bandeira), letra miudinha, espaçamento menor ainda, e a sua ortografia toda diferente e os seus brados (Eu falo brasileiro!), e do livro quase ter desmanchado na minha mão – tive que pedir a um colega da gráfica para remendá-lo –, aí é que me veio o apetite de devorá-lo inteiro.

E não posso omitir que tropecei à beça nos tais erros conscientes e de ignorância. E me deliciei com as suas gargalhadas de si mesmo ao admitir a confusão, pois nem você sabia mais o que era um e outro. Portanto, mais difícil de ler impossível, mas não consegui despregar os olhos do livro e de rabiscá-lo. E tinha a lanterninha esclarecedora de Bandeira, com suas notas, sempre apontando aqui e ali.

Creio que essa leitura sem frescura de você acordou o Macunaíma endiabrado que existia dentro de mim, cheio de disparates, ávido de tudo, sempre por caminhos tortos, como o desta escrita.

Fiquei, sim, Mário, embasbacada com você, que me acertou como uma trombada, desmantelando tudo. Por caminhos tortos, diferentes daquela trilha batida (e incompreensível) da leitura (odiada) de Macunaíma no colegial, você me chega à idade madura com um cheiro absoluto de intimidade, de verdade, a verdade do homem, as dúvidas todas, as idiossincrasias, aqueles fios do caminho do aprendiz que foi juntando para construir Mário de Andrade, o escritor serelepe, como você gostava de dizer.

Mas como eu ia tropeçando – aprendo com você que escrever é um soberbo tropeção! –, fiquei ávida de você como alguém que de repente se vê num espelho pela primeira vez. Você cutucou alguma coisa dentro de mim e cutucou com vara curta, quase que me exigindo a ousadia do ataque, a coragem da exposição, da fragmentação, da cara a tapa... É Mário, você me espetou sem dó nem piedade. E me encheu de uns apetites diferentes, vorazes, ferozes...

E mergulhei nas linhas e entrelinhas da sua correspondência com o velho Manú, aquele que lhe agüentava com complacência de um deus indiano... E Manú agüentava e decifrava a sua tortuosa e difícil escrita e pegava você no flagra das teses mais descabidas, mas enchia de orgulho a bola da sua criação. Penso que nem Manuela (a máquina de escrever comprada a crediário e batizada para homenagear Bandeira) aliviou o suplício.

Felizmente, Mário, você encontrou em Manuel mais do que o fiel amigo confidente, um espelho que ajudou você a refletir e se refletir do modo mais transparente na moldura de um tempo eivado de futuro pelo viés da sua obra. É nesse saboroso diálogo com Manuel Bandeira que vemos Mário por inteiro e mais do que Mário um retrato amplificado de Brasil que ecoa nos tempos de hoje, vertiginosamente... Há que se agradecer por extensão a Manuel por ter deixado você inteirinho da silva, ou melhor, andradiano mesmo, com sua ortografia personalíssima. Tanto “milhor” pra gente na labuta de conhecer você.

Mário, o mais modernista dos modernistas de 1922, ainda hoje o moderníssimo Mário de Andrade, que legou ao Brasil a materialidade de sua alma, a alma musical de seu povo e de sua fala.

E a consciência é um oráculo tão obscuro, como você mesmo pontuou. Assim como você era apaixonado por sua verdade porque ela era apaixonante, talvez esta mesma paixão febril em sua vida e obra seja o que mais me toca e encanta agora. E ando em círculos com você e vou cada vez mais (pro) fundo marioandradiano, escutando a sua voz, suas dúvidas, suas tentativas, seus erros e encantando-me com o acerto final de tudo isso.

E como estou no círculo de sua escrita e o precioso envelope já se desmanchando novamente em minhas mãos, aproveito a íntegra de um pensamento seu para sair da enrascada dessa carta: “Imagino que entre a consciência e a subconsciência inda deve de ter um terreninho safado em que grandes brigas se travam. Ás vezes escuto ecos dessa briga. Porêm me aturdo com leituras e pensamentos noutras coisas...” Assim, entre outras leituras e interesses, sempre volto a Mário de Andrade.

Bem, antes que eu perca completamente a oportunidade de colocar ponto final no rumo absurdo dessa carta, nesse desgoverno de idéias e sensações, continuarei com a firme determinação marioandradiana de travar essa gloriosa batalha com a sua obra... E me divertindo muito... Talvez retome o assunto, de forma mais ordenada, em outras cartas, ao sabor de suas provocações.

Um abraço danado de afetuoso.

P.S.: Favor não devolver ao remetente.


Cida Almeida | comentários(1 )



30/05/2007 11:00
Releitura com cheiro de tinta fresca


Erico Verisssimo em sua biblioteca
Foto:Leonid Streliaev - Governo RS



Com as cores da alma

Os melhores escritores que li na vida eram os que sabiam pintar com as palavras. Melhor: sabiam pintar e bordar com as palavras. Tinham na paleta mágica das palavras as cores da alma e o poder do encantamento da agulha – a nos cutucar e remendar por dentro.

Escritores de palavras... Passei por tantos... Escritores de imagens... Esses moram na minha alma, com seus quadros humanos sempre me cutucando no vai-e-vem do range rede, emoções e pensamentos. Como esquecer Ana Terra, Bibiana, Capitão Rodrigo, Clarissa, Vasco e o menino paralítico?

Impossível rebobinar a fita e apagar a voz profunda de Riobaldo - humanamente impossível. E... Nonada ecoa como o estampido de um tiro no sertão errante da minha alma. Mergulho no fundo do poço; escavo o barro com as unhas e mesmo assim a voz, as neblinas e uma saudade sem remédio de Diadorim... Riobaldo habita minha varanda lírica...

Atravesso insônias, visito cárceres, escrevo carta e a pintura em branco e preto de Vidas Secas desenhou dentro de mim uma paisagem retirante e esquálida, gracilianamente uma rachadura exposta... E vejo o homem, a mulher, o menino mais novo, o menino mais velho, a cachorra... Baleia! E um soldado amarelo. Memorável ter caminhado de pés descalços pela secura silenciosa da paisagem humana de Graciliano Ramos, também inesquecível (obras completas na minha estante)!

Às cinco da tarde, mesmo quando não penso, penso em Drummond. Desfio um colar de rezas, salmodrummondiando o anjo torto que mora comigo, na cidadezinha qualquer por onde vagueio e vou devagar... Com a obstinação das duas mãos e o sentimento do mundo... Toco seus seres? Não. Eles me tocam, como uma legião de anjos de mil faces, e me ensinam a conviver com a pedra no meio do caminho. E me comovo e me esqueço a contemplar e a sentir a mão que toca os meus ombros e ela não pesa mais que a mão de uma criança. E essa vontade de escrever, que me paralisa o trabalho, não vem de Itabira, mas tem tudo a ver com Drummond...

Abro a mão e salta uma estrela, depois uma rosa... Eis Bandeira pintando, pintando... Enquanto contemplo o que ele pintou, sinto o cheiro da tinta fresca de suas palavras me mandando ouvir um tango argentino... E me ensinando a amar Mário de Andrade, na pintura, com aqueles “docemente dos nanquins mais melancólicos”. Irremediável, vou recitando o que me possui a alma...

E pintam tão bem os bruxos! Machado e Baudelaire. Só para citar dois e nem visito as pessoas de Pessoa, um caso à parte, e os outros mágicos de além mar. E o quadro Capitu, oblíquo e dissimulado, como a fruta dentro da casca, me propondo enigmas. Cada vez que leio, um calafrio. E Bentinho saiu do teatro antes do fim de Otelo... Freud desconstruindo e Machado construindo, num tabuleiro de difícil xeque-mate. E ao vencedor, as batatas!

Baudelaire me chama à sua barraca, onde minuto antes entrara um pícaro. Prometia malabarismos de pequenos poemas em prosa e eu que já tinha passado pelas flores do mal... E pelas flores das flores do mal... Entro de mala e cuia. E me engano. E me encharco de umas tintas inimagináveis, só sentindo, sentindo. Eles me assaltam. Saio transmudada e nada será como antes. E ainda na borda da mesma lona vem a moça Isabel Câmara cantarolando: “Ninguém me ama/Ninguém me quer/Ninguém me chama/De Baudelaire”.

E os prazeres tortos das palavras sensíveis, nervo de dente de siso exposto ao gelo e ao vento na pintura movediça de Clarice. Ela entrou. Eles entraram. Deixei que se acomodassem no incômodo que me causaram. Depois tranquei a porta e engoli a chave. Vez em quando, sorrateiramente, rasgo o ventre, retiro a chave, abro a porta e convivo grávida de falas.

Pinturas hão passando dentro de mim, riachinhos espelhados, brilhantes seixos deslizam no cristal fininho de maio. E me toca tanto a pintura íntima e delicada da borboleta pousada Adélia Prado, o universo do seu quintal. Aquelas palavras de vizinhas saltando o muro, as memórias das pequenas epifanias, migalhas nobres do pão sagrado da poesia na mesa posta dos nossos dias. E salve Adélia, a formiguinha-lava-pé pintando essas dores de saudade da minha mãe. Pintando, plantando uns canteirinhos fecundos de poesia e aromas raros.

Os pesados portões do paraíso não escondem o que o ácido Caio Fernando tatuou na camada mais profunda da minha pele... Ouço uns blues, sigo anjos decaídos por labirínticos corredores e esconderijos. E o dragão me queima como uma carta nas mãos que eu desejasse muito ter escrito, que eu precisasse muito ter escrito, mas engoli as palavras certas e as palavras erradas. E ela me traduz num ponto enigmático que me escapa sempre entre o umbigo e a rua de dentro... E eu rezo para que seja doce, doce, doce, doce, doce, doce, doce, sete vezes, o mantra do dragão Caio F. Anjos de porre vagam pelas luzes da cidade que não iluminam e acedem a noite pintada nos meus corredores, que cheiram a éter e morte. Além do muro, Caio é um grafito na linha do meio que me divide em partes desiguais... Vou pra rua, vou pra vida... Vôo.

E tem Elisa, que ouvi cantar, que vi desnudar a poesia em gestos de atriz. Essa foi pintando e bordando em mim, do começo ao fim, jogando pro céu uma chuva prateada de palavras de tintas fortes... Amor, rotina, separação, saudade, legumes na geladeira, lua menina que menstrua ao léu das ruas, e a escrava-poesia muito mais nua sai para passear... E me leva junto na pincelada...

Ah, esses pintores e suas palavras-tintas mágicas! Tintas que têm as cores da alma. E a primeira pintura de palavras a gente nunca esquece. Assim, nunca esqueci Erico Verissimo (obras completas na estante para deleite meu!). Segui todos os quadros de Clarissa. Guardo como um tesouro (sem necessidade de releitura) a menina e sua cabeleira no balanço dos galhos do pessegueiro e o olhar de Amaro ainda me perturba dentro do quadro... O grito esganiçado, aquele passo em falso na escada, o papagaio, o segredo: Clarissaaa! E nunca deixei de seguir a menina: música ao longe, um lugar ao sol, imagens. Impossível esquecer o quadro: o minuano, Vasco na janela, o pátio, um cachorro seguindo uma fresta de sol. E o pintor que me seduziu assim com suas cores fundou continentes na minha alma ávida de povoamento. E vieram as cores de Ana Terra, Capitão Rodrigo, Bibiana...

Aí me vem um pensamento: se eu fosse escritor... Ah, se eu fosse escritor desejaria ser um pintor desses abusados. Dispensaria os pincéis, a química das tintas, o linho das telas, as estáticas molduras... Se eu fosse escritor cultivaria em mim o mais inventivo dos pintores. Ao invés de tintas, pintaria com palavras. Desejaria uma paleta com as cores da alma de Erico (e teria palavras-cores de ventania e de tempo), de Jorge (Palavras-cores de mar da Bahia, café, cacau, dendê, pimenta, cravo e canela), de Adélia (Palavras-cores de quintal, asas de borboleta, rezas salpicadas na cozinha), de Graciliano (Palavras-cores de terra seca, cacto, sol), de Guimarães (Palavras-cores de veredas, de sertão em toda parte, de travessia, de neblina, de buritizal, de olhos de Diadorim, de voz de Riobaldo, de demônio no oco do homem), de Bandeira (Palavras-cores de rosas e estrelas), de Drummond (Palavras-cores de mina e de Minas, sentimento do mundo, anjo torto e pedra, sempre pedra), de Machado e Baudelaire (Palavras-cores de tudo, de personagem, de cena, de olhar demolidor), de Clarice (Palavras-cores de avidez, de medo, de real moído, de prazeres que nunca terão nome); de Caio (Palavras-cores de ácido, de anjos tresloucados, de porres, de orgasmos, de duplos, de sentidos indistintos), de Elisa (Palavras-cores de incêndio, de palco, de luzes, de vida).

Ele chegou agora, do fundo mais fundo... De José Mauro de Vasconcelos não esqueceria jamais as palavras-tintas mágicas que me deram a chave do mundão de dentro, um coração de vidro multicolorido – que eu enchi de lágrimas preciosas; tintas que me arderam os olhos – e uma canoa encantada, de nome Rosinha... Até hoje ela me navega no fundo da pintura... Minha rosa, minha flor, minha nega, meu amor... Eu me confessaria frei abóbora. Ah, e tem Maria (José Dupré)... Éramos seis, retrato familiar, e até hoje a solidão de dona Lola me incomoda tanto... E na pintura: telhado cor de cinza solidão.

Se eu fosse... Se eu fosse... Queria muito um pouco de tudo isso, um pouco do segredo da magia de cada um deles, pouquinho mesmo que fosse. E faria do meu jeito palavras-cores só minhas e pintaria hoje um pintor com a febre do mundo, com a febre de Deus, mas que só tivesse palavras e páginas em branco... E a doce tortura das cores da alma.

Goiânia, 27-5-2007.


Cida Almeida | comentários(3 )



14/05/2007 12:03
A palavra de mover montanha





Paul Klee – Na cidade do sonho



Toco na poeira das ruas

imagens cruas

Toco na poeira do tempo

imagens nuas

Na poeira das ruas

imagens cruas me tocam

Na poeira do tempo

palavras nuas me entalham

Na poeira de tudo

o pó das ruas

Na poeira de mim

o pó purificado das cinzas

frágil escultura no sopro tortuoso de Deus

O pó na perenidade do tempo

das minhas palavras ao vento

que movem, de leve, muito leve

a dureza inominável da montanha.


Goiânia, 14-5-2007 (Fragmento de poema recolhido na ventania das ruas).

Cida Almeida | comentários(2 )



12/02/2007 13:07
Sonho








Silêncio.
.
.
.

(Acomodem-se todos os ruídos do mundo)
.
.
.
Serenize-se o mundo
.
.
.

Que os olhos contemplem
Com o coração Extático
O gozo divino de ver
O sonho alado da lagarta
.
.
.
Que os olhos sejam preces
A luz de joelhos
Na profunda harmonia de Deus
O vir a ser
O sonho leve
O parir das asas
O vôo breve
A beleza infinda
O firmamento
O risco
A imensidão azul
O livre ventre
O finito eterno
O SER
.
.
.




***

Olho é olho. E o José Afonso, fotógrafo tarimbado e sensível, tem um olho que é brincadeira. Hoje ele me mandou a foto por e-mail, como um presente. Fiquei de boca aberta, um tempão. E já veio com o título, Sonho. Deu vontade de rezar, fazer uma prece silenciosa, de joelhos, diante de tanta beleza e sensibilidade. Essa é uma imagem que entra na gente e engrandece a nossa alma. Coloquei umas palavras, todas dispensáveis. A imagem me remeteu a Sonhos de uma Noite de Verão... Mas deixa a imagem do Zé falar ou aninhar-se silenciosamente num canto quente do nosso ser e sonhar...



Cida Almeida | comentários(4 )



12/02/2007 12:57
A flor da pedra







Bem-me-quer
O querer aflito das pétalas
Ao contrário das voltas
Do meu redemoinho
Palavras palpitam na nudez
Da tua boca de mil cavernas
Em que me perdi e ainda rastejo
Réptil a procura de fendas
Onde brotas medrosa
Onde extingo
A palidez dos dias breves
Mal-me-queres
Se mal me olhas
Varando por dentro tempestades
Dessas de fazer tremer a razão sóbria
De um copo d’água
As tempestades estão aqui
Na palma da minha mão e são tuas
Noites! Ah, as noites que não te conto
Dessas distâncias palmilhadas
De muro e partidas
E exílios
As espirais da pedra e do sono
Os abismos tecidos com palavras
No fosso dos silêncios
Na fissura das esperas
No desamparo das ausências
Essa coragem sozinha e inútil
Às vezes ternura
Às vezes fundura
Às vezes nada
Um sopro na escuridão
A triturar a flor de todos os enganos.

Cida Almeida | comentários(2 )



03/01/2007 11:25
As promessas de todos os começos




Todo começo tem lá as suas promessas. Uma levada de sonho e desejos, talvez ilusão ou franco desespero, mania que a gente tem de se agarrar a alguma tábua de salvação, ou nem isso, apenas a busca de um ponto cego de apoio. E como todo começo tem lá às suas promessas e pensando na mágica matemática do número sete, já pintando o sete de 2007, não resisto e vou com fôlego ao protocolo de intenções para este ano que se inicia.

Pensei nas listas. Mas melhor mesmo é não cometê-las. Nada daquelas prometidas dietas, exercícios físicos, viagens por roteiros mirabolantes, enfim, desejos que se tem à vista de um ano novo para na fatia dos doze surrados meses que se seguem nadar, nadar e morrer na praia desse ingrato crediário de nossas volúveis vontades. É que na maioria das vezes a gente quer ir para um lado, e a vida torce pelo outro. E lá vamos, porque atrás vem gente e de esperar morreu um bobo.

Portanto, começo, livre e solta da tirania das promessas que sei que não vou cumprir. E ainda mais se pactuadas assim, no ímpeto de virar folhinha, como se o gesto nos redimisse do que se passou no ano que passou. Melhor mesmo é pensar no formato guarda-chuva para esse protocolo de intenções, desses bem genéricos, passível de abrigar os nossos mais disparatados desejos. Pois bem: não são promessas, apenas protocolo de intenções.

Bem, como já levei uma vida sem conseguir me organizar, principalmente a incômoda papelada, fica apenas na intenção colocar só um pouquinho de ordem ao caos: pilhas de revistas que sei que não vou reler e, a bem da verdade, até esqueci os interesses que me levaram a colecioná-las; uma montanha de papéis sem serventia, mas toda vez que tento jogar fora empaco naquele pressentimento doentio de que pode ser importante guardar aquilo por algum motivo futuro, então, vão ficando; as memórias encaixotadas, melhor mesmo se as tivesse esquartejado sem piedade alguma, no estilo do melhor açougueiro, e atirado-as ao vento.

E aquelas pastas, de todas as cores (onde está a lógica, o método? Socorra-me Descartes!), recheadas de documentos, a maioria contas pagas e caducas, mas ali, resistentes à todas as faxinas. E essa só Freud explica: todos os livros didáticos, cadernos e provas desde a 5ª série ginasial – sei que nem mais é essa a nomenclatura – até à Universidade, e foram duas faculdades! Meu Deus, que absurdo, quinze anos de papelada fazendo a delícia das traças em caixas que nunca mais tive a coragem (ou insensatez) de abrir... O quesito papel quase-morto sei que é um incômodo considerável. Portanto, vou tentar diminuir o volume e me livrar desse fardo visual na moldura de 2007.

Outro quesito, leituras, que têm mais a ver com o jardim das delícias. E nesse item estou como diria o Odorico Paraguassu (personagem de O Bem Amado, de Dias Gomes, interpretado pelo saudoso Paulo Gracindo), com a alma lavada e enxaguada no contentamento. Em matéria de leitura despachei 2006 com a contabilidade no azul. Reli compenetradamente, no range rede, Grande Sertão: Veredas. Segui o itinerário da Pasárgada de Bandeira e ali reencontrei aquela poesia arrebatadora de lirismos essenciais, as confissões sussurradas do seu processo criativo. E também um despertar compulsivo pela poesia e prosa de Adélia, que tive o privilégio de abraçar em 2006, e outras fúrias de beleza verbal, como o feitiço das palavras de Elisa Lucinda e tantos outros e outras. E tome leitura diária, até doer a vista! Um coquetel saboroso. E tome também filosofia, psicologia, crônicas, ensaios, biografia, teatro, cartas...

E o melhor de tudo: todos os títulos estavam na minha estante, perdidos de mim, e resgatados com um espanto de novidade absoluta. Muitos até havia esquecido que tinha e corria o risco de comprar novamente. E aproveitei e já dei aquela pseudo-organizada, ou melhor, embaralhei um pouco mais a falta de lógica e montei uma prateleira dos que serão lidos em 2007. Antes mesmo da virada do ano já devorava páginas da correspondência de Mário de Andrade para Manuel Bandeira (Cartas a Manuel Bandeira, com prefácio e notas do próprio Bandeira) e para Portinari (Portinari, Amico Mio), além do ensaio Desenveredando Rosa, de Kathrin Rosenfield, que ganhei de presente no natal. Mais uma semana e coloco ponto final nestas três interessantes e instigantes leituras, já ávida de começar outras.

Sei que vou passar um tempão este ano correndo atrás de Mário de Andrade. E como uma delícia puxa outra, nestes primeiros dias de janeiro vou visitar sebos, as esquecidas lojas de livros usados. Sobre aquela prateleira especialmente reservada para o banquete de letrinhas de 2007, tem de tudo um pouco, de Freud à visão de mundo de Einstein, passando por Dante, Buñuel, Drummond, mais Adélia, Bandeira e Elisa Lucinda, Guimarães Rosa, José J. Veiga e muitos outros. Pena que não me adaptei aos óculos de lentes intermediárias - para facilitar a leitura enquanto trabalho no computador - e terei de providenciar novos com a lente só para perto. E como diz a minha oftalmologista, depois dos 40 é assim mesmo, a gente pode até viver sem sexo, mas sem óculos nunca.

Acredito, firmemente, que as minhas intenções de leitura contarão com essa motivação interna bem acesa pelo processo já iniciado de volta, de resgate de identidade, esse momento mais calmo de conviver com o Eu profundo, exercitando a escuta de dentro.

Agora, difícil mesmo é aprumar o corpo, acertar o passo e suavizar as dores da alma para continuar a marcha dos dias, acreditando que a vida é uma coisa linda. E o melhor: é linda mesmo, apesar das dores às vezes desmedidas. 2005, 2006... Anos difíceis, de grandes rupturas, perdas referenciais, fragilidades expostas, humanidade desnuda até o osso... E vem aquele sentimento dantesco, no meio do caminho desta vida; e drummondiano, no meio do caminho tinha uma pedra; e rosiano, viver é muito perigoso; e adeliapradeando, uma borboleta pousada, ou é Deus, ou é nada; e Bandeira tremulando: “Alô iniludível! O meu dia foi bom, pode a noite descer...” Pode nada! É hora de reagir, eu sei. À maneira de Drummond, o que a terra há de comer, mas não como já, se mova ainda para o ofício e a posse.

É isso: viver é esse imbricamento de ação e posse, esta no sentido da entrega, do reconhecimento, do contato. Um contínuo fazer e acontecer, buscando aquele sentido fundo do prazer. O prazer de estar vivo, em movimento, de tocar e ser tocado, de todas as infinitas maneiras. Então, que a gente tenha a percepção do lúdico para pintar e bordar em 2007, mesmo que o avesso não seja perfeito. E daí? Mais que um feliz 2007, que tenhamos um ano bom, com o vigor dos nossos melhores desejos.

Cida Almeida | comentários(4 )



02/01/2007 10:49
Memória afetiva


O país dos horizontes
(Araguari 1944, carro de boi 108)


Quanta chuva, poeira fina, lamaçal e inexistência de estrada nos sonhos do meu avô e no pragmatismo sem nome e impotente da minha avó, que o seguia, mas, no fundo dessa falta de rumo e prumo, no esmo da vida feita de vontades desgovernadas, o dirigia com doces mãos de ferro! Quanta metafísica de tudo isso na minha história, na saga tropeira do meu avô tangendo o boi bravo da vida exigindo o futuro andante das gerações.

Quanta ferrugem, meu Deus, rangendo desde o mais profundo tempo das Minas Gerais até à travessia das almas que fecundaram em Goiás! Quanto pasto ruminou os bois carreiros, quanto choro de criança, resmungos e explosões de fúria da minha avó! Quantos silêncios e desatinos do meu avô! Quanto descompasso na toada do canto dos carros e no lombo daqueles bois e daqueles dias que viraram lenda perdida na memória dos que a viveram! Quantas exclamações disfarçando perguntas sem respostas!

E quantas ave-marias, pais-nosso, salve-rainhas, rosários de contas e lágrimas nas rezas de minha avó, e esperanças, mais que sonho, na travessia em definitivo do rio Paranaíba. E mais que um retrato, um estado de alma, Minas virou a imensa e inatingível pátria do meu avô, que jamais reencontrou em suas visitas, porque estava dentro, entranhada nas raízes que ficaram lá atrás, antes daquele momento da poeira fina da estrada grudando como nódoa naquela alma surrada.

Assim, nos habituamos às histórias de meu avô Belisário, em que tudo era pretexto para Minas. Não comprou terras em Goiás, porque terra boa, de cultura, era de Minas. E água? Ah, água boa era a de Minas. Não sei, toda vez que penso em Minas, sinto água brotando de escondidas grotas dentro de mim, gotejando fria, fria, atingindo os ossos da eternidade.

Ainda vejo o meu avô, aquele chapéu bailarino no longe - longe, relampagueante e corajosamente único sobressaindo no meio da boiada, um mito que queimou e queima como brasa o sopro lírico de nossas vidas.

Escuto ainda, como num sonho, as histórias de brabezas e valentias daqueles homens de sertão, de silêncios e de ermos. Escuto, querendo tocá-lo, meu Deus! Os seus passos no corredor do alpendre que adiava a casa beirando uma eternidade; tento seguí-lo, já atravessando a sala, mas paraliso todos os músculos, como fazia quando criança, enquanto ele passava por nós, destemido e temido como um deus. Bastava rascar a garganta, que a gente sumia. E se soltasse aquele temido merda expressando o seu profundo desagrado com as nossas artes, aí tudo estava perdido e só restava mesmo a proteção das barras da saia da minha avó, às voltas de quem ficávamos, até que o dia escorresse e o velho Belisário envolvido com a lida da fazenda nos esquecesse por completo. Ufa! Era um alívio.

E a vida recomeçava sempre igual naqueles cafundós de quintais, beira de rio, o Capivari de perigos insuspeitados, o vasculhar os campos atrás de passarinhos, o embrenhar-se nos brejos, o sonhar acordado com os olhos pregados naquelas neblinas de manhãs. O nevoeiro denso que vinha lá das bandas do rio e chegava até os beirais das janelas nos enchia de um fascínio de ver. Só reencontrei essa sensação das neblinas daquelas manhãs ao ler As Brumas de Avalon. Em pensar que a minha barca de passagem para esse mundo perdido é um simples objeto com a gravação do nome do lugar, a data e um número de inscrição... A imagem da neblina misturada à fumaça esvaindo-se do fogão a lenha e o café no bule eternamente sobre a chapa quente chega a me inebriar.

E havia também aqueles confins de tardes, onde nos erigíamos pequenos gigantes do país dos sonhos, trepados nos bancos areados da sala para compensar a desvantagem da pequena estatura. Debruçados, como anjos suspensos, nos janelões de madeira de lei, intuíamos um mundo depois daquela árvore, daquela curva, pra lá do funilzinho da estrada, já sumindo como um risco... Ali, descobri o país dos horizontes. E nunca, nunca mais perdi a sensação aliviada das janelas.

(In) consciente mineiro - Minas não há mais daquele jeito – que tanto reencontrei em Drummond e Guimarães -, com os vestígios das histórias de meu avô, coisas do (in) consciente coletivo mineiro, que anda de trem – de novo a imagem das janelas e das paisagens – e faz da mineirice um estilo de vida. Quantos cortes e recortes, nessa desordem lírica das minhas palavras, que não domino e nem calo.

- Gente, vai lá, arranja um cafezinho. Ouço. E é o meu avô, com o seu jeito mineiro de ser agradável e querendo esticar conversa. Não imaginas com que gosto estalo a língua e pronuncio o seu nome, como se ouvisse os cascos dos bois batendo lentamente na dureza da jornada, que deságua agora aqui, nas minhas palavras comovidas ao tocar com devoção um objeto quase sagrado: a plaqueta vermelha, a tinta intacta, o vazio do relevo das letras, onde dormem um pouco da poeira e da ferrugem do tempo, daquele seu tempo, querendo expansão e expressão: Araguari 1944, carro de boi 108.

Por 62 anos esta placa, do tempo em que os carros de bois eram emplacados, como os automóveis, repousou esquecida em outra fonte de mistério que aguçou a imaginação da minha infância: a caixa de madeira tosca, trancada a cadeado, ao lado da cama do meu avô, onde pensei que guardava grandes tesouros. Ouro, diamante e perigos que eu temia só de espichar para ela o olho, como se o próprio Deus a vigiasse.

Hoje sei que guardava um revólver calibre 38, com cabo de madrepérolas, e também o pavor da minha avó tantas vezes resgatando aquela arma das suas mãos em momentos de entreveros e cabeça quente. O curioso inventário daquelas miudezas: duplicatas de dívidas que ele nunca recebeu; certidões de casamento, nascimento e óbitos; fotografias, em branco e preto, amareladas – algumas com os ditos cujos no caixão, como o costume da época; a binga, o canivete, maços de cigarro que ganhava de presente e até mesmo latas de marmelada – que ele comia devagarzinho, um luxo naqueles tempos.

E o mais precioso segredo guardou aquela caixa: a minha imaginação. Os planos secretos que urdíamos à sombra de frondosas mangueiras para desvendar os mistérios do sistemático e severo avô, em que sua palavra tinha força de lei e traçava destinos, como o da minha tia caçula que se casou com um primo de Minas para satisfazer e honrar única e exclusivamente a vontade Belisarina. Bom, os planos, meu e dos primos, nunca passaram de fugazes intenções momentâneas afugentadas pelo medo do imperador daquele reino. Minha tia nunca foi feliz no casamento, mas cumpriu os ritos de se perpetuar nas gerações, sem perder a nostalgia daquele mundo da casa branca de janelas azuis, que se avistava ao longe como uma promessa de sonho.

A mesma casa que visito agora, com todas as cores e cheiros da alma, dessas de descrever as minúcias insignificantes dos objetos, como o amassado dos dois bules coloridos, um verde e o outro azul, o de café amargo para os homens e o adoçado para as moças. As marcas provocadas pelo fogo nas panelas de ferro, os pratos de esmalte branco lascados, as flores dos copos, a banqueta de cruzeta ao lado do fogão à lenha onde pela nossa física tinha que caber três, depois dos noves fora da briga com a prima que não era a predileta.
E agora seu Belisário? O que faço desse tesouro na fundura da alma? Escavá-lo com palavras é o que me resta, embora quisesse muito outras possibilidades de tocá-lo, fundo, fundo, além dessa placa que materializa Araguari 1994, o carro de boi 108. E isso já é uma outra viagem.

Travessia seca - Dia desses procurei uma tia, a mais velha – queria tanto que minha mãe estivesse aqui! – e tentei acordar-lhe um pouco da memória, com uma conversa e perguntas que ela deve ter estranhado demais. Mas penso que, naqueles seus doces anos de menina, adolescente, não quis reter muita coisa daquela jornada tresloucada da família, já numerosa. E nos espantávamos com o mesmo recente espanto dos outros pela matemática dos 19 filhos que teve minha avó Maria.

Em um carro de boi, puxado por parelhas de oito animais, a família saiu lá das bandas de Araguari e se aventurou com um irmão do meu avô – esse sim, o temido Joaquim Vicente, que já morava aqui e serviu de guia por estradas que estavam mais na intuição e no desejo do que propriamente no traçado –, até chegar a Santa Luzia, hoje Aurilândia, no Oeste Goiano.

A data da viagem foi escolhida para o período das secas, tempo propício para os carreiros que continuavam a desbravar os sertões de Minas e Goiás. Segundo Ana, minha tia, a viagem durou sofridos 23 dias. Não sei, mas fiquei com uma impressão na alma de 33. Tenho uma intuição de memória confusa de ter ouvido narrativas da minha mãe sobre vagas lembranças dessa viagem e de ter falado em 33 dias.

Mas de todo o caso, uma jornada e tanto no passo lento e determinado dos bois tangidos pela perícia de meu avô, um brabo domador de animais, gentes e destinos. Uma lembrança tem a preciosidade de sentinela da memória. Passaram por Trindade em plena festa do Divino Pai Eterno, que acontece no primeiro domingo de julho. Portanto, julho de 1944. O ano em que meu avô emplacou o carro, colocou a canga nos bois, juntou a família e as trouxas e deu início à saga da família.

Sei que foi uma jornada penosa para minha avó e suas crianças, que vivia a sina de um filho na barriga, outro no braço e uma porção de outros em volta, sem contar o gênio forte do meu avô.

Mas nunca foi uma mulher triste e nunca se deixou dominar pelo marido, apenas reinava de um outro modo, deixando-o na ilusão de comando. E quem de fato fazia e acontecia era a força perene e feminina de Maria. Moldou os filhos, as gerações e as nossas almas. E quando sabia que meu avô ia fraquejar, endurecia e pegava no chifre do boi, vencendo até mesmo intricadas barreiras de negócios mal feitos travados no emaranhado desvantajoso dos parentescos. Foi assim, com sua franqueza e habilidade, colocadas em cena na hora certa, que livrou muitas vezes o meu avô de sair de negócios com uma mão na frente e outra atrás, como se dizia antigamente.

Era vaidosa a minha avó, de uma vaidade sadia. Adorava vestidos novos e perfumes e mais que tudo, viajar. Lembro de uma viagem, a gente dentro de uma combi dirigida pelo meu pai, um punhado de tios e primos e minha avó soltar este comentário: “Em pensar que eu sou a responsável por essa gente toda que está aqui!”.

E isso, sim, era felicidade. Não uma felicidade qualquer, dessas fugazes, que a gente compra e depois descarta. Mas uma felicidade feita de alma e presença e certezas de que aquilo era muito bom. Felicidade viajando no sangue, de geração em geração, entranhada na memória afetiva, abrindo as janelas daquele país feito de horizontes. Os que meu avô deve ter vislumbrado nos Gerais ficando para trás e nos chapadões de Goiás virando realidade. Os horizontes que eu toquei do parapeito das janelas daquela casa que veio muito tempo depois de sua linda aventura na travessia seca do Paranaíba.

Lamento muito não ter guardado minuciosamente as suas histórias, como guardaste as preciosas quinquilharias na sua caixa misteriosamente mágica, ainda hoje, mesmo depois de aberta, e desvendado todos os segredos. Que pena, eu não saber os nomes dos bois! Que pena!

Em pensar que também o Brasil é sempre uma surpresa, principalmente nas suas disparidades. Olha que fui buscar nos livros um pouco do Brasil de 1944, coisas do cotidiano, e no mesmo julho em que chegava ao seu destino, tangendo os seus bois carreiros, o Brasil estava mergulhado na Guerra, com os seus pracinhas embarcando em aviões para lutar nos campos da Itália. Enquanto tangia os seus bois pelos sertões de Minas e Goiás, aviões riscavam o céu de um outro Brasil que nunca chegou a conhecer. Fechei o livro, esqueci o ar de enciclopédia que pretendia para este texto e sinto que o mais importante mesmo era o seu sonho, a sua determinação, e o nome de seus bois.

A bênção, meu avô! Fico aqui, a contemplar imagens do coração e da memória, enquanto os meus dedos passeiam amorosamente pela placa do seu carro de boi, o carro da nossa aventura, da nossa história, com os resíduos da poeira da sua estrada e da ferrugem que vai nos comendo de todo jeito, pelas beiradas e por dentro. Mas que tesouro! E é meu, cuidadosamente desembrulhado agora com palavras.


Cida Almeida | comentários(0 )



20/12/2006 11:45
Doces mistérios





Nada mais doce aos meus ouvidos inquietantes de hoje do que ouvir Esotérico, do Gilberto Gil, na interpretação suave da Kid Abelha Paula Toller. Penso no estado de abandono e nos mistérios (pro) fundos desta vida; penso nos passos indeléveis da longa estrada, a jornada do coração. Penso ou sinto? Sinto ou minto? Minto ou mitifico? Metálica, tilinto audível como o atrito de uma faca de prata na borda do mais fino e puro cristal. Penso e sinto, escavo os anos até o osso dos dias virgens, que quedam antigos na concha das minhas mãos. Diria, ainda hoje, sem medo de ferir a delicadeza dos dias raros, não adianta nem me abandonar, porque mistérios sempre há de pintar por aí (aqui!), validando com uma vida já vivida os versos da canção. Doce, doce, ainda a mesma intuição, nos dias de hoje, a fisgada de um peixe arisco assumindo o risco da linha do anzol, a fome intacta e o banquete surpreendente dos dias que se seguiram. Não, não adianta nem se abandonar, porque mistérios sempre há... Vibro, o som misterioso, apenas ecos nas minhas palavras inquietantes de hoje sacudindo o pó da estrada. Doce, doce, Paula Toller desembrulha nesta manhã de vidraças uns raios de sol de antigas e alegres manãnas na minha língua.


Cida Almeida | comentários(3 )



18/12/2006 16:07
Fragmentos de uma pequena história sobre o tempo








- Pode ser devagar?
- O quê?
- O mundo, ué.
- Ah, sei não. Tô muito ocupada agora. Depois a gente conversa sobre isso.

Esse diálogo tatibitateante e descompassado coloca na balança dois pesos (im) ponderáveis: o mundo na velocidade da máquina e o mundo (cada vez mais perdido) na velocidade natural do homem – regulado pelos ciclos da natureza e a biologia. Apesar da máquina, a vida pode ser devagar? Tem gente que acredita que sim, é possível e recomendável ir devagar com tudo. Aqui, por essas terras onde Cabral deu corda no relógio e apressou o passo do índio, Martinho da Vila canta aos quatro ventos que “é devagar, é devagar, é devagar, é devagar, devagarinho...”. Deita (deliciosamente) na cama e rola na fama de ser devagar. Aliás, o que seria uma qualidade passou a ser um traço pejorativo nada aceitável na personalidade do homem contemporâneo.
Bom, mas essa conversa meio videoclipe, flertando com a histeria de zapeadas com controle remoto ou clicks pelo difuso, confuso e fragmentado mundo da informação instantânea - tudo de tudo, o tempo todo, sem no fundo coisa nenhuma e já atrás de uma outra coisa muito diferente - tem a ver com um fato prosaico, desses que cortou a minha pressa e aguçou a minha curiosidade. Não é que existe um movimento mundial dos devagar quase parando!
E quem trouxe a novidade foi a minha amiga Lucy Elaine – ela lê tudo, mas tudo mesmo que lhe cai às mãos em português. Estava aqui, na maior concentração (frenética), redigindo e plugadíssima ao mundo virtual - clicks e mais clicks - e Elaine solta essa: Achei um movimento pra mim. Ah? O que disse?
Calma e vagarosamente, ela explicou: “Essa matéria aqui da revista (UMA), fala de um movimento mundial, devagar (slow) e eu que sempre pratiquei essa filosofia sem saber! Comigo tudo é devagar...” E disse isso com aquela ponta finíssima de orgulho de quem descobriu que é muito bom viver na contramão, no caso dela, devagar e sempre.
Não resisti. Pedi a revista emprestada, levei pra casa, li a entrevista do canadense Carl Honoré, um ex-estressado que chegou ao absurdo de se interessar por métodos tipo como ler histórias infantis para as crianças em um minuto, mas caiu na real do devagar e deu o pulo do gato. De adepto virou um dos gurus da coisa. É o autor do best-seller Devagar, que não pretendo ler. E o negócio parece que é poderoso e organizado, mas lento, como toda mudança de comportamento e sem contar o furor do inimigo visível, a máquina do mundo moderno. A turma do devagar já fechou, em protesto, até fast food símbolo do paladar apressado e homogêneo da globalização. E tome clube da preguiça espalhado mundo afora.
A coisa cheira a modismos próprios de época, o óbvio ululante do rentável negócio da auto-ajuda. Mas não é que mexeu comigo, que sou estressada de corpo, alma e profissão – embora não pareça. Aí me lembrei da genialidade de Charles Chaplin em Tempos Modernos, o autômato na linha de montagem, o homem engolido pela máquina (um Carlitos sem poesia). O relógio fragmentando mais que o nosso tempo real, o nosso tempo psicológico e a nossa alma.
Passei uma semana encafifada com o tema. E a máquina do pensamento desembrulhando imagens, idéias e outras caraminholas.
O mundo nunca mais foi o mesmo desde que Henri Ford inventou a linha de montagem e os automóveis encurtaram distâncias. Terra, céu, mar, espaço sideral e virtual mediados (e esquadrinhados) por velozes e eficientes máquinas. O relógio e o mundo girando cada vez mais apressados e o homem na roda. Se parar cai (?). E na esteira outras invenções mais apressadas para um mundo cada vez mais instantâneo, por um click ou no máximo dois – seguindo a lógica do sistema.
Enfim, aquele relógio de dentro, o chamado relógio biológico, se não pifou de vez, deve estar muito doente, exigindo reparos e, principalmente, atitude e mudança de comportamento. Por isso, compreensível a desaceleração proposta pelos adeptos do devagar.
Em outras palavras, vamos com calma com o andor porque o santo é de barro. E a gente se esquece disso: que somos o santo de barro. Conheço gente que não tolera final de semana e nem feriado – o tormento é triplicado se for prolongado – porque não sabe relaxar e aproveitar o tempo livre. O corpo vai pra casa, mas a alma fica lá no trabalho, presa em algum canto entre papéis e a invenção de uma urgência que virou vício, doença e desperdício de vida.
Claro que não é fácil ganhar a vida num mundo cada vez mais competitivo e seletivo. Por isso mesmo, saber dosar é essencial. E como dizia minha mãe: vamos temperar a balança. Equilíbrio! Trabalhar, sim. Se for preciso, muito. Mas também relaxar e aproveitar a vida – com todas as pausas e intervalos – e a companhia das pessoas, da família, dos filhos, dos amigos, dos conhecidos e desconhecidos, dos bichos de estimação. Esquecer um pouco o ritmo e o tempo da máquina e se regular pela natureza. Mar, cachoeira, riacho, montanha, mato, jardim, a magia do quintal – confabular com as árvores, as trepadeiras, as flores, a grama, os cheiros-verdes.
Deixar o computador mais tempo desligado e vagabundear pelos livros pode ser um bom começo para reconstruir nosso tempo mental e emocional. Há gente por aí que só lê na tela do computador, no tempo da máquina. Mas eu não abro mão por nada dos meus livros sagrados no meu tempo emocional, com as delícias das anotações e os sublinhados a lápis. Penso que é essencial desacelerar, mesmo que devagar, um pouquinho de cada vez, até chegar naquele limite de pacificação interior em que se é possível ouvir e escutar o próprio coração.
Sei que o bicho que rói o nosso tempo bom pega para todo mundo. Um bom termômetro é o nível de escuta. Fala-se muito e cada vez mais num mundo que está ficando surdo. Ninguém escuta ninguém. Às vezes, a opção que resta para muitos é o divã do analista, grupo de auto-ajuda, o refúgio das religiões ou outros venenos.
Escutar – e não simplesmente ouvir – é um privilégio para regular melhor esse nosso relógio de dentro. Faça o teste do balcão. Simplesmente chegue e formule um pedido, três coisas no máximo, e didaticamente. Ficará surpreso com o nível de escuta do balconista, que no fundo, é a média de escuta de todos nós. Quantas vezes ao dia nós simplesmente não desligamos a nossa escuta? E temos o gestual de uma mímica pronta para fingir escuta. E o que é tudo isso senão estresse, pressa e uma válvula de escape para nos protegermos do excesso do mundo.
Uma vez fiquei envergonhada diante da minha sobrinha, que queria contar uma história com começo, meio e fim. E eu cortei: Ana Beatriz, diga logo o que você quer? Não, madrinha. Você precisa me escutar para entender o que eu quero dizer (?).
Tem dias que a coisa complica e não tem agenda que se encaixe no dia. E não quero, de jeito nenhum, o que muitos proclamam diante de todos os relógios, um dia de 25 horas – só se fosse para as delícias da preguiça. Mas descobri uma fórmula: se esquecer algo é porque não era tão importante assim. Não me martirizo e nem arranco os cabelos por isso. E estamos conversados.
E há um verbo que tenho gostado cada vez mais, por mais perigoso que seja à vida produtiva: procrastinar. Sei dos riscos, pois afinal não tenho a eternidade à minha espera. Mas gosto de cultivar minhas idiossincrasias.
E reivindico, com energia, o meu direito à preguiça. Que o digam, às vezes, os cestos de roupa suja implorando pelo tanque, as pilhas das limpas pelo ferro de passar e a louça esquecida na pia, enquanto eu cismo com as pernas para o ar, no conforto desses pensamentos cheios de curvas e cortes na maciez do sofá. Ou simplesmente, largo tudo e vou passear no quintal, embevecida com a beleza do dia, as plantas renovando a folhagem, as floradas novas e aquelas frutas maduras cheias de novidade das estações.
Dia desses vou fazer fila com a Elaine para ingressar no movimento dos devagar, mas sem pressa alguma para carimbar carteirinha. Deixa o tempo correr, devagarzinho, devagarzinho, quem sabe eu chego lá, mas tendo curtido ao máximo passar por aqui.
Ah, o mundo pode ser sim, devagar e melhor! E já.



Cida Almeida | comentários(3 )



13/12/2006 19:34
Dias de plantio



Sob o céu do Planalto Central, o inventário do meu rebanho de nuvens

Entre dores expostas, tentativas de curativo, balanço na rede e pente fino nas vontades que pretendo fortificar para seguir em frente, no final de semana vivi dias de plantio. E pensei muito na matemática dos riscos que, assim meio sem querer querendo, deixarei que me seduzam.

Mais telúrica, impossível! Que o digam meus calcanhares, unhas e a palma das mãos, onde os primeiros calos se impõem à maciez dos cremes e do ócio - também tenho direito à minha porção de preguiça, devagar e sempre.

Mangueiras, cheiros-verdes, quiabos, feijão, milho, gramas, imagens e muita metafísica em dois dias de quintal. Teve até paradinha para um registro fotográfico: meu pai de enxada na mão, suor no rosto e ao lado minha convicção materializada de que a vida é encontro e partida, presença e falta, e tudo ao mesmo tempo. E num abraço em que a vida pousa e repousa e também se desprende, sem cerimônia, como uma borboleta na brevidade da tarde.

E é preciso saber lidar com isso! Saber lidar... E lidamos com a terra, esse fazer a esmo e meio refazenda, com aquela dor da ausência na casa, que cala profundamente na fotografia. Como você faz falta nas nossas fotografias desse instante, de hoje e de todos os amanhãs.

Mas deixemos o retrato com a sua metafísica, linguagens subterrâneas e nossas dores recém-inauguradas. Quero mesmo é registrar um pouco desses meus dias de plantio, do real que está à flor da terra. O inventário é nobre: duas mangueiras bem plantadas no quintal da dona Odina - que tem uma familiaridade absurda com as plantas, principalmente flores; umas braçadas a mais numa miúda roça de milho entre arbustos e ervas medicinais e uma centena de grãos de feijão para aproveitar o feitio das covas em que cresce a espera embonecada por suculentas espigas douradas.

Todo esse plantio nasceu de impulsos, uma lavoura emocional desordenada. Gostei do ato e do resultado. E tudo começou com a delegada incumbência de plantar as mangueiras da dona Odina. Cumpri a missão: plantei uma mangueira em seu roseiral e a outra nas adjacências; também os girassóis gigantes e hibiscos dobrados. Como bom soldado, fiz um relatório da tarefa cumprida. E ainda brinquei com dona Odina, que vive plantando espécies novas e belezas raras para o deleite dos olhos e da alma, dizendo que agora só faltava ela escrever um livro. Se bem que o livro dela já está muito bem escrito e dispensa palavras impressas. Uma história de 75 anos de vida frutífera pode se dar ao luxo de dar de ombros ao adorno das palavras. Vivi e pronto!

De quebra, nesses dois dias tive ainda os meus momentos de lavrar a terra interior. Mas essa é uma outra história. Voltemos ao meu quintal. Também plantei no meu quintal. Uns 100 metros quadrados ou mais de grama no jardim, em que chegaram poucas flores mas muitas árvores já se exibem vistosas para os nascentes e poentes desses meus dias de fazendeira (e isso não tem nada a ver com o tamanho da terra e nem com o nível de produtividade). Minha escala é a da alma e dos dias vividos.

A minha fazenda abarca uma casa amarela, com janelas para o mundo; um contínuo de jardim e quintal; um portão na divisa em que o meu coração sempre atravessa contente para encontrar o aconchego desejado; um rebanho numeroso de nuvens brancas pontilhando o céu (aquele azul cristalino típico do Planalto Central, que mais parece o fundo de uma pintura); noites quentes - por mais que os dias sejam frios -, em que o azul se apaga para que uma colcha rendada de estrelas seja estendida até à linha do horizonte; e nem preciso falar do espetáculo de todas as fases da lua nos quatro cantos da minha varanda.

E como plantar implica em sulcar a terra, revolvê-la e salpicá-la de calcário e adubo, é bom que aproveitemos o momento mágico para fazer a semeadura de dentro pra fora, com um pouco de sonho e crença de que as flores virão carregadas de beleza e o verde-sempre-esperança de que a vida se transforma, sim, e não está isenta de dores, mas que os frutos serão mais saborosos se tiver o nosso toque essencial.

É assim que vivo e planto, procurando recriar as paisagens de dentro e de fora, deixando que elas se toquem, se modifiquem, se amem e se estranhem, nas entranhas do que vejo, sinto, penso e reelaboro. E na minha fazendinha diária a medida é a de que posso e devo ser a responsável pelo resultado da paisagem. Disso não abro mão, nunca. E, de preferência, com crédito na fotografia que embrulha para o futuro o pacote dos meus dias de plantio.


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05/12/2006 10:10
Amores que ficam




Existem amores que ficam para sempre dentro da gente, encantados, habitando um
cantinho mimado da nossa alma, da nossa emoção mais pura, mesmo que não pensemos
mais neles e que não tenham mais espaço na nossa vida. É aquela história batida de
amar o amor que sentimos. Esses amores são aqueles que nos chegam com o seu toque
mágico de ousadia e transgressão e marcam a nossa alma com fogo e gelo, do começo ao
fim. E amar é sempre um privilégio, uma benção, mesmo que venhamos a amaldiçoar
alguns desses amores em que erramos feio.

Amar é uma transmutação, um virar a vida pelo avesso e o mundo de cabeça para
baixo... E achar lindo! Esses amores deixam muitos vestígios, uns alegres e outros
nem tanto, mas que de alguma forma vão moldando o nosso jeito de querer bem e querer
mal.

Alguns amores se perdem dentro da gente, como se nunca tivessem existido; outros
escorrem uma vida inteira como chumbo quente derretido, atrapalhando o fluir dos
nossos riachinhos para o mar grande de outros amores. E há aqueles que por um motivo
misterioso encontram o seu lugar dentro da gente e ficam ali, como um dia de sol
gravado de forma viva na memória, um filme sensível, uma história delicada, uma
preciosidade, um perfume raro, um segredo bom adormecido na gaveta.

Esses amores instigam a gente a escalar montanhas e ensinam a arte da descida, com
um pouquinho mais de luz para quebrar o padrão daquilo que nos faz errar em
círculos. Dinamitamos a ponte, mas descobrimos que a passagem está na alma, no afeto
construído. Embrulhamos dores e enganos com gravuras e poesia, mas o que está na
caixinha é uma porção de espelho melhor da nossa alma. Ah, ainda respiro e sinto
aquela poeira fina em minha alma suada, sempre que os primeiros pingos da estação
chuvosa beijam a terra... Uma lembrança iluminada, sem dor e nem saudade.


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30/11/2006 15:22
Um dia de não




Cupido e Psiche - Antonio Casanova

Não. É o que digo hoje. Assim, sem precisar pensar, dar tempo ao tempo da minha paciência que se esgotou. É não e pronto. Não para essa arrastada agonia de esperar o fim de uma ilusão que me queimou em carne viva. Não para todos esses assombros que me encheram de perplexidade. Não para essa falta que me expõe. Não para o que me dói e corrói. Não para esse tropeçar, sempre, no mesmo buraco. Não para essa neblina espessa que me roubou dias de sol e a promessa de horizontes.

Não. E nunca mais sequer um momento estragado pela visão desse estranho móvel na sala. E nunca mais esses esbarrões e hematomas. Não, com toda minha seriedade destilada em iniludível serenidade... Não, não espero mais, não tolero mais, não sofro mais a mesma perda reinventada todos os dias. Não e abro definitivamente as cortinas, mesmo que os dias além da janela sejam mais sombrios do que esses em que reconheci essa ignorada rachadura.

Não. A minha última chance, a carta que despojadamente coloco na mesa, pronta para tudo ou nada. Mas é não. E no limite da porta, dois gestos. A escolha não é minha. Entre Eros e Psique o que dói é o véu. E pensando em Gonzaguinha: “Eu usei a palavra mais certa/Vê se entende o meu grito de alerta”.


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27/11/2006 09:59
Quase acreditando





Por quase um segundo... Tamborilando, meio tonto e meio triste, meu coração segue a canção e o anjo embriagado que destilou blues sobre as doces ideologias perdidas e os amores vertidos... Por quase um segundo, as baladas melancólicas no vão da janela no escuro do mundo em que me perdi de você, embora ainda fosse dia claro... Por quase um segundo, a vida breve e urgente no compasso da eternidade... Por quase um segundo, penso que cheguei tarde demais... E, também, roçando o mesmo quase do mesmo segundo afoito sinto, quase acreditando que ainda é e há tempo... Mas quais são as flores e as cores? E continuo com os meus sonhos ruins e, às vezes, acordo chorando... Aí, viro pro lado e embalo um sono de ausência sentida... E continuo ouvindo bastante Cazuza.



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22/11/2006 10:21
TRÉGUA





Sirènes - Camille Claudel


Sem palavras famintas a me comer por dentro. Como se eu fosse um mingau quente, estrategicamente aconselharia, pelas bordas, pelas bordas. As palavras pintam e bordam comigo. Mas hoje, não. Pedi trégua e ameacei greve de verbos. Fechei com fúria o dicionário para que nenhuma palavra escapasse ilesa do meu protesto. Não quero e pronto. Chega de conversa, de disse-me-disse no meu ouvido, de chamego forçado, de pequenos incêndios verbais na minha cabeça. Na-nani-na-nÃO... Quebrei a ponta de todos os lápis, joguei as velhas bics na lixeira, rasguei todos os cadernos e desliguei o computador. Impossível de palavras. É assim que quero ficar hoje. E nenhuma palavra penetra vai violar a minha decisão. Quero folga dessa compulsão, flertando perigosamente com neuroses substantivas. Nem os palavrões me pegam hoje. Vou para a rede balançar e ver estrelas, esquecida de Bilac e de pileques verbais. Aproveitar o frio e dormir pesadamente sob cobertas quentes, sem deixar espaço entre o travesseiro para que palavras ardilosas e sorrateiras venham se aninhar comigo. Nenhuma palavra há de esquentar minhas orelhas. Todas, porta fora... Vou dar duas voltas na fechadura e colocar o meu chapéu sobre o trinco para que elas não se embrenhem pela fresta. Esta noite, sem chance de copularem comigo. Vão sussurrar em outra freguesia. Chegou a minha vez de dispensá-las sem a menor explicação. E chega de conversa fiada. Passem amanhã, quem sabe... Quem sabe...

Hoje, definitivamente, NÃO!


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19/11/2006 19:19
A curiosa

La Valse - Camille Claudel - 1889-95

Ontem, assim que escureceu, senti aquele arrepio fininho na nuca, uma estranha sensação de ser observada sem, contudo, intuir de onde vinha o olhar curioso. Já em ritmo de rodovia, sentindo o peso das luzes da cidade se perdendo no retrovisor do carro, olhei pro céu e... Surpresa! Lá estava o olhar espião... Na verdade a curiosidade ingênua de uma menina tímida que, a passos miudinhos, hesita escancarar sua presença na sala de visita. A danadinha principiava a primeira fase de uma brincadeira encasquetada, me seguir olhando pela fresta – ela fez um risquinho finíssimo de meia lua na lona do céu. Como voltar pra casa indiferente a essa doce espiã dos meus pensamentos? Como simplesmente fechar a porta e virar as costas a esse princípio de noite no sertão celeste do Planalto Central, assim, espraiado no meu quintal e onde a vista abraça sem susto o horizonte? Cheguei em casa, abri as portas e janelas, tirei os sapatos, corri pra varanda e deitei na rede, de cara para a meninice dessa luazinha de primeira espiada... Fui brincar com ela. Enquanto me espia, adivinha os meus segredos, vai? Vamos pular amarelinha? Joga uma estrela que eu danço... Não estou com pressa, temos a noite toda e quantas mais durar o jogo. Viu? Passou um avião... Aquele pio foi da coruja que mora no cupinzeiro em frente. A Mel latiu e o Lorde Fedegoso engrossou o coro... Ah, deixa de preguiça, abra um pouco mais a cortina e escancara essa beleza. Não me faça esperar pela nova aparição, já aflita de torpor pela cheia inundando o coração de uma esperança que às vezes mingua... Tá bom, confesso: minguou demais no espicha-encolhe desses meses, mais encolhe do que espicha, também é verdade, mas não era pra menos. Como o vazio desse agosto... Esse sertão iluminado de estrelas solitárias... A minha perplexidade como o grande enigma da humanidade em Kurosowa, um cego à beira do abismo. Mas enquanto essa luazinha endiabrada vem crescendo de mansinho, no itinerário da procura de todos os tempos, fagulhas de esperança beliscam meu coração e saio pra brincar com ela, esquecida do balanço da vida no embalo da rede na minha varanda ampla de possibilidades... Imito a lua, pego palavras afiadas e rasgo também a cortina. E danço com os olhos e a alma, o corpo suspenso, os passos radiosos da lua levitando no chão batido do quintal. Ah, e o violão encantado de Dilermando Reis aguçando essa vontade de viver enfeitiçada, enamorada dos dias e das noites e mais nada.


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16/11/2006 19:35
Por Angatu, rumo Norte na minha alma


No coração do Brasil existe uma cidade quente, eqüidistante mil e quinhentos quilômetros dos portos de Itaqui (MA) e de Santos (São Paulo). Para o Norte ou para o Sul, lá estão os mil e quinhentos quilômetros, que sonham com a ferrovia, a Norte-Sul que teima em não passar por aqui e chegar até à bela paisagem de Porangatu, onde um tupi-guarani batizou o que viu no horizonte, uma “bela paisagem”. Outros que pisaram depois, muito tempo depois, por aquelas bandas, no rastro dos bois e das foices e enxadas, inventaram histórias que viraram lenda, como a paixão de um bandeirante por uma bela índia, de nome Angatu. Toda história de amor para atravessar o sertão do tempo e do imaginário, de língua em língua, ainda mais pela tradição oral, precisa ser apimentada pela impossibilidade de vivê-la no prosaico dos dias para chegar aos nossos ouvidos. O bandeirante pagou com a vida a ousadia de ter se encantado com as belas paisagens da índia, mas deixou a sua frase de efeito para instigar a nossa imaginação e as histórias que contamos: Morro por Angatu. Simples assim, Por Angatu, Porangatu.



Belas, a paisagem e a história de amor. A primeira vez que rumei ao Norte de Goiás foi para Porangatu. Cinco intermináveis horas de BR-153, buracos aqui e acolá também, as manobras de videogames para fugir às extravagâncias perigosas dos caminhoneiros com planilhas de horários “quase” impossíveis de serem cumpridas, e o meu olhar atento e ávido daquela paisagem fugindo aos olhos no correr da estrada. Aquelas faixas de mata de cerrado ao longo da estrada, em alguns pontos revelando ainda vales preservados, embrenharam dentro de mim com aquela profusão de sucupiras roxas, ipês amarelos e outras maravilhas da nossa rica flora do Planalto. Essa paisagem das estradas que me levam ao Norte, GOs e BR, e os rios com seus nomes fazendo cócegas na língua, nos ouvidos e na imaginação, pedem sempre a minha visão com o clamor das estações. E gosto de me entregar a elas com a curiosidade diversa do calendário. E toma viagem!



Dizem que a primeira impressão é a que fica. E Porangatu foi me possuindo como um namorado encantador, primeiro de ouvir falar e depois com aquele flerte de imaginação, um quê de será? E foi uma chegada de jeito, calorosa. Não sei, mas existe sim, e na pele a gente sente, uma linha em que um calor diferente lambe o corpo e a alma pouco depois de Uruaçu. Nas primeiras vezes cheguei a comentar: sentiu? É a linha, a onda, o sol do Equador irradia aqui, está beijando a minha pele. Depois descobri o calor de dentro das casas, dos abraços, dos reencontros sempre festivos, de sorrisos largos, o calor humano porangatuense. Aquele calor que sente falta da gente.

Penso que o namoro longo já me permite a indelicadeza de algumas confidências. Imaginei uma cidade diferente, talvez não tão próspera e nem tão bonita e acolhedora à primeira vista. De cara, a bela paisagem da Lagoa Grande – uma lagoa natural, formada por minas d'água que brotam no centro da cidade que abraça esse recanto visual – refrescou a minha alma e os pensamentos que sacolejaram BR adentro, que nem estava tão esburacada quanto me pintaram. Senti-me a própria bandeirante diante daquela paisagem. Angatu despertou o bandeirante dentro de mim, chamando-me pelo olhar. Aquele misto de calor, beleza e afetividade das pessoas grudou em mim, definitivamente. Circulo pela cidade com desenvoltura, como um da terra, retribuindo os cumprimentos, parando numa porta ou outra para conversar, saber das novidades, tomar café, explorar os quintais, comer manga no pé ou aumentar a coleção de plantas da região que crescem viçosas no meu quintal – lembranças vivas dessa história de amor -, e também me desculpar com uns e outros pela passagem rápida, sem tempo pra visitas.

As histórias da cidade e das pessoas já sei de cor, e gosto de contá-las com o entusiasmo de alguém que se apaixonou e quer dividir a grandeza da visão sentimental. A bela paisagem da cidade está sempre renovada nas fotografias, atualíssimas. Da Lagoa Grande, com as ondulações matizadas da luz do sol coando a água e os efeitos da chuva, nas várias estações e em horas diferentes do dia; noites enluaradas beijando a gente desde o fundo do espelho daquelas águas que deram amplidão à minha vista; o vai-e-vem das bicicletas, que dariam um belo documentário daquela gente em movimento; os namoros adolescentes nas enseadas e bosques que vi nascerem às margens da lagoa; a elegante arquitetura do movimentado Centro Cultural compondo um cartão postal da alma dentro da paisagem urbana. E Nossa Senhora da Piedade, a padroeira, encontrou morada no coração devoto dessa gente. O Centro Histórico, na região do Descoberto, é um convite à calma e à atenção. É só chegar ali para um sentimento inexplicável desmantelar o relógio dentro da gente. As janelas olham a gente sem curiosidade, no correr tranqüilo da vida de dentro das casas. A bela Igreja Matriz Nossa Senhora da Piedade impõe-se na paisagem, no centro da praça onde um cruzeiro expõe-se ao infinito do céu e da fé, o sino no escanteado da igreja lembra nos badalos o dobrar da vida nas missas, nos batizados e nas passagens desta existência - que mereceu uma crônica do mestre Rubem Braga, O sino de ouro.

Um charmoso coreto pede contemplação do cenário, ladeado por frondosas e generosas mangueiras. As casas antigas, com suas janelas, gente simples, cachorros despreocupadamente felizes e livres, e as tradições do Poço dos Milagres. Reza a lenda que o feitiço brejeiro da região é tomar água do poço para se encantar por inteiro. Garanto: não tomei da água e o encantamento foi irremediável. Não há antídoto e nem quero. Quero mais é continuar rumo Norte, em todas as temporadas, com os agitos do carnaval, a magia do teatro embaixo da lona de um circo no TENPO - Mostra Nacional de Teatro de Porangatu -, as cirandas do povo, aquelas imagens de uma gente rara com suas bicicletas, o brilho da lagoa, o tempo parado no Descoberto da minha alma, naquele lugarejo do interior dos meus Brasis, o meu bandeirante gritando um desejo de Angatu. Que bela paisagem comem as minhas palavras!




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15/11/2006 14:57
A lua de Pirenópolis bate na minha janela





A lua de Piri, numa fase que não é a minha cheia, cheia...

Antes e depois da lua cheia numa perdida noite de Pirenópolis, em 1992. Somente hoje me dei conta da quantidade de areia acumulada no envelope do tempo, que marcou profundamente as cartas do paraíso. Quase 13 ou mais de 13 anos... Perdi a precisão na contagem absurda do tempo que escorreu entre os dedos e os desejos todos daquela época de transição (im) perfeita. Se fosse inaugurar uma lista de desejos com certeza incluiria Pirenópolis numa noite de lua cheia. E apenas 121 quilômetros separam Goiânia de Pirenópolis, um pulo e tantos motivos para voltar à cidade e nenhum foi suficientemente apelativo para provocar o retorno. E desde aquele dia a cidade adquiriu um contorno mágico na minha história pessoal. Talvez seja isso: nenhum apelo foi direto ao coração do dragão. Não teve Cavalhadas, Festa do Divino, passeios ecológicos pelas cachoeiras e parques, festival gastronômico, canto da primavera ou sedutores convites para fins de semana em pousadas ao pé da Serra dos Pirineus que me levassem novamente ao cenário do paraíso que ajudou a acender o fogo do dragão.

Talvez alguma coisa dentro de mim resista para preservar o encanto daquela lua de nunca mais aqueles incêndios no corpo e na alma; nunca mais aquela maciez imprimindo novas e definitivas sensações no Braille encantado dos meus dedos na divindade do corpo etéreo da minha lua cheia; nunca mais antes da linha aquele toque de adivinhação de todos os desejos; e numa mais uma janela como aquela e com aquele pulo de asas com a sensação de primeiro vôo para o infinito.

Algumas imagens daquela noite de Pirenópolis ficaram como um filme raro na minha alma. Impossível esquecer a primeira sensação daquele casarão com cada coisa em seu lugar e o toque cativante das mãos ausentes que um dia foram ágeis e construíram uma identidade para cada objeto e canto da casa. A ausência de quem soprou naquela casa o fogo da lenha das gerações parecia doer incomodamente nas cinzas do fogão, na poeira sobre os móveis, nos sulcos do colchão de palha, nas plantas do quintal ressentidas do cuidado essencial.

Mas nada se compara à lua cheia escancarada na janela. A lua vazava por todas as frestas e aguçava a minha fome de vida. Mentalmente abro aqueles janelões duplos e deixo a lua entrar, sem cerimônia. Ponho abaixo a trava e os ferrolhos que vêm de um tempo em que se guardava com cuidado as donzelas. Aquelas janelas de madeira de lei, curtidas pelos séculos, ainda hoje parecem ranger dentro das minhas palavras. A lua de Pirenópolis, definitivamente, acendeu em mim o fogo do dragão.

E quase ousei as labaredas... Mas temi o descontrole do incêndio na floresta. Quis preservar espécies raras. E a mais preciosa delas eu guardo numa redoma: a minha lua cheia e encantada. A frase dita no retorno, depois do marco zero, antes e depois de Pirenópolis, os jardins secretos do paraíso. E um dragão mais acordado do que nunca passeia comigo pelo lado esquerdo do paraíso.

*** As fotos das plantas foram enviadas pela pesquisadora e professora da Universidade Estadual de Goiás, Mirley Santos, resultado de um trabalho de pesquisa com seus alunos sobre as espécies nativas da Serra dos Pirineus, em Pirenópolis. Lindas as floradas. Encontrei hoje o arquivo (mais um perdidinho de HD) e a propósito desembrulhei uma memória de Piri (lindo de se pronunciar, como Jeri, de Jericoacora, um jacaré ao sol na minha memória que pretendo esticar por aqui, qualquer dia desses...). E Pirenópolis tem encantos, recantos, história e esses recortes íntimos e pessoais.




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13/11/2006 17:55
A beleza que encanta a sétima arte










A bela que é uma fera



E Deus disse: Fiat lux. E a luz se fez. E acenderam-se os refletores e a beleza de Michelle Pfeiffer incendiou a tela e desde então vem roubando a cena e engolindo a emoção da gente, como um monstro sagrado que fica mais belo com o passar do tempo esculpindo a alma. A primeira vez que vi Michelle foi num comercial de sabonete. E quem poderia imaginar que daquelas espumas a bela figura de mulher que enchia os olhos da gente escorregaria como uma enguia para as telas de cinema? E naquele tempo nem era moda esse negócio de modelo virar atriz. E Michelle chegou de frente, com luz própria e divina.

Com Michelle Pfeiffer no elenco vale a pena assistir até as bobagens (e foram poucas) com um prazer inenarrável, só para vê-la devorar a lente e impor uma beleza que está além do corpo, muito além da voz e dos olhos ou do próprio talento – que é grande. A beleza de Michelle está na alma e na entrega despojada ao ofício, sem a afetação do ego. Ela consegue vestir com o mesmo glamour e a mesma graça esvoaçante um Valentino ou um vestidinho básico, de tecido ordinário. Por isso não é exagero afirmar que ela fica linda até mesmo vestida de chita e poderia enumerar uma dezena de filmes em que os vestidinhos em tons pastel, com uma invariável blusinha de frio rala complementam a perfeição de Michelle. Veja Mentes Perigosas e depois a gente conversa sobre a bela vestida de chita. Ela me fez correr atrás das letras de Bob Dylan que, segundo uma amiga que entende do assunto, deveria ganhar o Nobel de Literatura. Que encanto ver Michelle às voltas com aquela classe de perdidos no bairro e na vida! Que perfeição sob a pele da professora suburbana tamborilando com a sedução da sua arte mais que lições de moral, as endorfinas do gozo supremo das palavras de Dylan na boca da diva que sabe subir no salto alto, mas vive com paixão o prosaico que encanta a gente, porque é a vida que a gente vive.

Pense nas grandes divas de Hollywood e na vasta constelação das belas de cachês milionários e tente descobrir a que viu mais vezes em reles cenas do cotidiano, escovando os dentes, por exemplo? Michelle Pfeifer. E no quesito pijama e escovas de dente, Frankie & Johnny é impagável, que cena meu Deus! E tome Um Dia Especial, desses bem prosaico mesmo, tipo filho, escola, trânsito e o charme de George Clooney. O lindão de Hollywood passa o filme todo como a gente, babando, babando... E especial mesmo é reverenciar o cotidiano como quem lê uma crônica em movimento na sala escura. Nada como uma história bem contada com a graça de Michelle em cena. E para que a história fique redondinha e superbem contada, basta a luz especial de Michelle para colocar sal na pipoca nossa de cada dia. Ainda bem que muitos diretores descobriram isso.

Na filmografia de Michelle não desprezo nada, nem mesmo o que não está catalogado. Um dia, por acaso, vi um filme na tevê, sessão da tarde, desses antigo, antigo. Mas a história era tão boa, com uma promessa de Sherazade no ar, que fui me encantando. E valeu a pena pela surpresa. Um não sei quê no sorriso da mocinha, que era caixa de supermercado numa cidade do interior dos Estados Unidos e namorava um rapaz lindo, rústico e determinado – que cuidava de adolescentes no limite da delinqüência –, me fisgou. Meu Deus, Michelle! Descobri quase no final do filme, que nem tinha visto o começo e, portanto não sei o nome. E não descobri na pesquisa sobre a filmografia da atriz. Mas vi. E isso basta.

O enigma de Michelle está na paixão correspondida com a lente. Ela devora e é devorada divinamente pela câmera, numa relação possessiva e visceral. Em Íntimo e Pessoal, Robert Redford que nada. Os verdadeiros protagonistas são Michelle e a câmera. Íntima e pessoal é a relação de miss Pfeiffer com a caixinha mágica, onde Pandora revela seu poder, mas guarda os segredos da criação. O charmoso e ainda bonitão Redford, que na pele da personagem brinca de diretor de TV, tenta ensinar lições de imagem para uma ambiciosa e determinada garota do tempo que rouba a cena e vira âncora de telejornal. A melhor cena é quando faz a garota do tempo. E ensina uma grande lição de fotografia: a entrega, o namoro com a lente. Depois dessa cena, minhas fotografias melhoraram muito. E quando vou fazer um click, seja de homem ou mulher, digo, incisiva como um tarimbado diretor de cinema: relaxe e pense que é Michelle Pfeiffer. Não tem foto que fique ruim, garanto.

Mas vamos ao melhor de Michelle – que pra mim está sempre por vir. Mas enquanto não vem, vou revendo os filmes, incansavelmente, e nem me importo com os repetecos do telecine e sessão da tarde. E já que sua luz aquece a gente como um feitiço, vamos ao Feitiço de Áquila, onde a bela contracena com um impagável Hutger Hauer, o eterno psicopata de A Morte Pede Carona – vamos lembrar sempre dele com um medo inexplicável ao cruzar estradas desertas – e o andróide implacável do clássico Blade Runner. Aquele cenário medieval vestiu a beleza de Michelle com um toque sagrado de terra. E que história linda e bem contada! O mito da criação, a separação do dia e da noite, sol e lua, homem e bicho, o desencontro de duas almas apaixonadas. Nunca vi os olhos de Michelle tão febris quanto em Feitiço de Áquila, iluminando o belo rosto que acordava mulher dentro da noite depois de ter reinado falcão nas alturas. A cena do despertar é linda, como se ela nascesse do interior da terra, integrada aos elementos, para iluminar as trevas – e a fome do lobo na floresta negra. Memorável Michelle com os cabelos curtos e desgrenhados, cortados a punhal ou outro similar mais rude ainda, numa época em que o máximo da tecnologia era forjar o ferro a fogo.

Para completar uma das seqüências do feitiço de Michelle é só assistir As Bruxas de Eastwick e se encantar com Sukie – a encarnação da fertilidade e sua penca de filhos – e as danações do diabão Jack Nicholson. A cama para três do diabólico e cada vez melhor Jack – melhor até que whisky – tinha ainda a performática e surpreendente Cher e a sempre imperdível, em qualquer papel, Susan Sarandon. Nicholson é bom demais! Mas as três juntas são melhores ainda e fizeram o sessentão tremer nas bases, literalmente. Cher, Michelle, Susan e Nicholson. Aí é covardia. E o cinema vira magia pura.

E por falar em magia, aproveitando a aparição de Nicholson, na minha opinião é um dos atores que mais tem química com mulher – em todas as nuanças. E com Michelle, então, é de tirar o fôlego. Na pele de Lobo o velho Jack mostrou as garras e eriçou os pêlos e deixou claro que não tem pra ninguém. Imagine que luxo esse homem, com todo o seu talento, e os poderes de um lobo sob sua pele que nunca esteve para cordeiro? E põe magia em cima de Michelle, a bela e arredia filha de um milionário do mercado editorial, que vive isolada em um conjugado nos confins do jardim da paradisíaca e sombria mansão do pai. A moça acorda e ao mesmo tempo domestica o lobo que vive na personagem de Jack. E está linda e exuberante no modelito de couro preto, desenhando os contornos do corpo e realçando a intensa melancolia em que vive mergulhada a ovelha negra da solitária família Eu + irmão suicida + papai ausente. O encontro dos dois é de intensa fome de viver e de atuar. A magia? Despertam em nós também os desejos de acordar as fomes ancestrais, a natureza indomável e primitiva de um bicho que não se deixa domesticar, desde que não esteja em questão o toque de Michelle.

No mesmo clima dark, Batman, o Retorno! Bem que poderiam ter feito Mulher-Gato com Michelle, arranhando pra valer a couraça do morcegão. Preferiram a morena e se deram mal, muito mal. Mas o perigo era o feitiço virar contra a feiticeira e ele querer a pele da gata não para tamborim, mas para sair por aí fantasiado de mulher nas noites de Gotham City (maldade, gente, maldade! E se até George Clooney duvidou da masculinidade do morcegão afirmando que este era o seu primeiro papel gay, eu também posso). Voltemos ao Batman, o filme. Michelle, simplesmente divina na pele de mulher-gato! Aqueles olhos, aquele InhauuuMMM, aquela lambida, as roupas pretas e o chicote pediam mesmo a pele maleável de Michelle. Nos sombrios becos da sombria Gotham City haverá sempre um miado diferente, um pulo à espreita partindo a luz em sete cores nos olhos da gata que além das sete vidas sabe como ninguém iluminar a sétima arte e a vidinha do sujeito da poltrona, que quer mesmo ter sua emoção toda arranhada pelas garras da felina.

Nem vou comentar a atuação de Michelle em Relações Perigosas, Época da Inocência, Conspiração Tequila, Scarface, A História de Nós Dois (com o durão Bruce Willys), De Caso com a Máfia... Mas não posso deixar de falar da minha emoção que nunca se esgota com a bela fantasminha sedutora de Para Gillian no Seu Aniversário. Como sempre, Michelle encarna com perfeição personagens que têm fome de viver, assim como Gillian, mesmo depois de morta vive lindamente nas loucuras do marido (Peter Gallagher), que percorre com sua dor um mundo de lembranças de uma existência feliz. Gillian, a mulher que se arriscava para viver a plenitude, mesmo que fosse uma rajada de vento na cara, como quando fechava os olhos e soltava o guidon da bicicleta e seguia embriagada de vento e maresia pela estrada afora. E uma dessas brincadeiras lhe custou a vida, ao cair do mastro do barco. Toda vez que vejo esse filme me bate um prazer (ainda não experimentado) de andar de bicicleta. Mas hei de vencer o desafio de aprender.

Entre tantos filmes, embora goste de todos, tenho os preferidos. Um deles é Nas Profundezas do Mar Sem Fim, em que a atrapalhada mãe de três filhos tem o caçula roubado durante uma festa de confraternização num hotel. Michelle mais que convence a gente da dor infinita e irreparável de uma mãe que mergulha na depressão e numa busca instintiva e incansável. A partir daí, a vida da família se estrutura na história da perda. A dor dos filhos presentes e abandonados, o marido que passa a cultivar e a amar a fragilidade de uma mulher rendida e as dificuldades do reencontro com o filho já adolescente. Cenas delicadas e intensas, com texto e subtexto que sobem e descem escadas emocionais da casa da família e se amarfanham entre os lençóis que testemunharam anos de choro de uma perda que tem de ser escavada no mais profundo da alma para, a partir dela, reconstruir a menor possibilidade que seja de encontro real e verdadeiro apesar da falta de reparo de algumas perdas.

Mas me rendi mesmo a Michelle em Susie e os Baker Boys, com os irmãos Bridges. A bela canta e canta de um jeito que grifa as cenas. Aquele piano de cauda nunca mais deve ter sido o mesmo. Suas teclas devem ter rangido de saudades de Michelle. A cena é clássica. Piano bar de um hotel, fim de noite, a blonde estonteante em um mais estonteante ainda vestido vermelho, com decote generoso na frente e atrás (hum!) beirando precipícios onde até Deus hesitaria... Mas o Baker boy Jeff Bridges não hesitou, estendeu a mão à bela que subiu no piano e encantou. Mas a gente ouviu mesmo foi com os olhos. Palmas para o diretor! Aliás, palmas para todos os diretores que preferem a bela da preferência da gente. E a sétima arte agradece. Bravo!

Só estou preocupada com uma coisa. Em 2007 Michelle vai filmar com Robert De Niro. Meu Deus, tomara que com ela De Niro funcione, pois sua química é boa mesmo com homem. Não funciona com mulher. Mas essa é outra história...




Cida Almeida | comentários(1 )



10/11/2006 11:01
Sobre o tempo e as tempestades



Difíceis lições


As lições mais difíceis de serem aprendidas são as do tempo, esse deus implacável que a tudo governa. E do tamanho da nossa impotência para lidar com esse inexorável devir dos dias – e tudo o que eles encerram – é a nossa criatividade para fazer do tempo objeto de investigação científica e criação poética, reinventando sempre mil maneiras de driblar o tempo de dentro e o tempo de fora da gente, esse que se imprime em carne viva e torna a alma uma construção laboriosamente humana - e aí encontramos uma legião de filósofos a escarafunchar as compreensões de que tanto carecemos para apaziguar um pouco a nossa procura de explicações para o sentido da vida -, em que a cada dia nos tornamos quem somos ou pensamos ou desejamos ser (como uma confirmação imperiosa).

Mas enquanto o tempo martela a nossa consciência e a vida grita em nosso corpo, vivamos com a justa entrega e intensidade. Também, à maneira de Drummond, com sua mineirice na palma do mundo, saibamos reconhecer a genialidade do sujeito que fatiou o tempo em 12 meses e nos legou a possibilidade de apenas virar a folhinha para acreditar que podemos zerar o cronômetro e que dessa vez, sim, tudo será diferente, com mais sabor, mais vitalidade e energia para o que der e vier.

Quase um ano de grandes dores desembrulhadas e extrema cautela para lidar com o tempo de dentro e o tempo de fora. Exercito com a paciência de um monge tibetano a medida do conta-gotas no vão dos dias e na marcha lenta do relógio. Ah, e com a vontade de acreditar que o sentido da vida também se constrói com muita poesia e que tudo está por um segundo, sempre, e que a vida se sustenta ou se esvai nessas brevidades... E alguma coisa dentro de mim sussurra: seja intensa e faça valer a pena. E repito: Saibamos, então, ser intensos e fazer valer a pena. Eu tento... E a correnteza das águas continua, indiferente a tudo, além dos janeiros e dos dezembros dos castelos que construo com palavras e areia dessa ampulheta preciosa chamada VIDA.


Tempo


Carlos Drummond de Andrade


"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar
no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação e
tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui para diante vai ser diferente
."



Cida Almeida | comentários(1 )



09/11/2006 09:53
Cenário sob a luz da lua cheia...



Ladeiras abaixo e acima, becos que mais parecem labirintos para quem não está familiarizado com a geografia tortuosa do lugar. Tudo nesta cidade desafia o nosso sedentarismo e preguiça, principalmente dos olhos e dos pés. Só depois de caminhar sobre o tapete de pedras que calça esta cidade podemos vislumbrar um princípio de intuição da alma das pessoas que habitam esta redoma, que flui no remanso do Rio Vermelho. E o horizonte emoldurado pela Serra Dourada exige olhos vigorosos para transpor os seus limites e os séculos de história e tradição que transformam a antiga Vila Boa num cenário de reflexão.
Patrimônio da Humanidade, Goiás é uma intrigante festa para os olhos e para quem se dispõe a olhar atentamente, sob todos os ângulos, a paisagem, os monumentos, as pedras, os vãos das portas e janelas, a alma das pessoas que caminham com atenção redobrada aos passos no deslize das pedras... É uma cidade que vive no de dentro e sai para ir à missa, batizar os filhos e seguir a procissão. E a Procissão do Fogaréu reconduz a cidade ao calor das tochas do passado, reacesas com o fogo da fé, ano após ano, de geração em geração.
É uma cidade que tem aroma de mato e água fresca correndo da fonte e também cheiro de museu, de cupim no oco da madeira, de velas derretendo, de livros antigos, de quadros saltando do porão, de arte despertando os nossos olhos. De um recorte na pedra bruta às fachadas das casas e prédios públicos, esta cidade nos conta histórias.
Ah, e também tem sabores que vêm de longe, dos tachos de cobre corando nas fornalhas de lenha onde se apuram o fio de deliciosos doces. Um tem pronúncia que me remete à figura de anjo: alfenim... E no plural, mais bonito ainda de dizer, alfenins... Que pluma no céu da boca, asas derretendo com gosto. Os sabores, em Goiás, têm memória muito, muito antiga. Mas também o frescor dos frutos do cerrado, que desde criança a gente aprende a distinguir no mato... Mangaba, gabiroba, cajuzinho do campo...
Nas poucas vezes em que visitei Goiás fiquei sempre com impressões distintas, com esta cidade mexendo comigo de um jeito incômodo. Mas cada vez, vou me soltando e gostando mais e descobrindo uma coisa nova para um olhar novinho em folha. Inegável, Goiás tem charme, um cenário cinematográfico e um não sei quê de nostalgia, de sussurro, de embriaguez... De encantamento. É isso. A cidade encanta a gente. E da última vez, foi covardia. Nem precisa daquela lua cheia, derramando-se nos contornos da Serra Dourada e no espelho do Rio Vermelho na noite cor de prata... Suave, suave, de ver e de sentir.


Cida Almeida | comentários(0 )



08/11/2006 09:55
Um anjo triste chorou no meu ombro



Um anjo triste encostou hoje a cabeça no meu ombro e chorou. Fiquei sem palavras. Como se consola um anjo? Que perdas choraria em meu ombro essa criatura celestial? Que dores angelicais justificariam a humanidade desse ato inesperado aquecendo a palidez desse dia tão igual aos outros? Nenhuma palavra destravou a minha língua, nenhuma intuição a quebrar a minha paralisia súbita... Às minhas costas, o anjo absoluto e humanamente desamparado recostou a cabeça na breve eternidade dos meus ombros e chorou. Senti suas lágrimas escorrerem para dentro de mim como uma chuva pesada e quente.
Anjo tresloucado, tão breve, tão necessário... Chorava a minha tristeza.
Ainda sem palavras, sinto o coração aquecido por um afago angelical.

Cida Almeida | comentários(1 )



07/11/2006 13:14
Uma tarde com Magritte


Passei a tarde passeando pelas intrigantes imagens de René Magritte, o pintor belga (1898-1967) que rejeitava o (inegável) rótulo de surrealista e tinha a louvável ambição de dar forma ao pensamento. E que força e expressão adquirem o pensamento em sua obra! Fiquei tocada, passada, sei lá como definir a sensação de algumas imagens que capturam o nosso pensamento sem chance de resgate, de volta sem trauma (alguma coisa move-se dentro da gente e nunca mais volta ao lugar da conformidade). Impossível passar pela porta aberta pela genialidade de Magritte e não descer aos porões de nosso inconsciente; impossível não enxergarmos nossas próprias inversões e a do mundo que nos cerca no confronto do espelho de Magritte: o interior que reflete o exterior; o espelho que reflete as costas do homem que se mira... Dia e noite no império da luz de uma mesma imagem que parece um convite à nossa normalidade de visão apressada... Opa, que susto! Só então percebemos um céu azulado abraçando uma paisagem noturna. Pintores de palavras e escritores de imagens. Impossível não voltar ao tema (mas isso deixo para outra oportunidade). Por hora, só a delícia de ver o que vejo e da forma que vejo na subversão da realidade de Magritte. E as palavras estão aqui, a me cutucar com vara curta. Mas me deixo sugar pelo universo desta porta aberta onde contemplo as promessas ilusórias das imagens de dentro da alma. E me deu vontade de conversar sobre Magritte com Maria Eugênia Curado, uma expert na obra do pintor, com todo o empenho da palavra.
Cida Almeida | comentários(0 )

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